terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Conto de Jádson Barros Neves

A Flor no Labirinto




Aconteceu na manhã da terça-feira, quando lhe telefonaram avisando que ela tinha ido embora – na noite da segunda, tinham feito amor e sofrido muitas outras alegrias. Avisaram para o rapaz não se espantar, quando encontrasse a casa vazia, e também disseram que a mulher não queria telefonar. Não queria mais falar com ele, foi o que disseram.
Na terça-feira, portanto, ele volta para uma casa silenciosa e abandonada, sentindo como se de noite uma enchente tivesse alagado o local, enquanto ele dormia, e houvesse levado tudo. O pássaro solitário, mudo na gaiola, olha-o obliquamente. O videocassete, de painel luminoso, onde ele via as horas (seu jeito de saber o tempo, pois nem mesmo um relógio de pulso usara em toda a vida), havia sumido. Vagueia pelo ambiente devastado com a súbita mudança, até quando os últimos fogos do dia se rompem numa penumbra crescente. O telefone ficou mudo o tempo inteiro. O rapaz e seu silêncio pensativo dormem cedo, nessa primeira noite.
De madrugada, acorda com os bem-te-vis lançando numa aurora laranja seu bem-te-vi amarelo. Deixa a cama silenciosa, veste-se e vai para o serviço. Lá, também nenhum telefonema. Chove, e ele contempla a chuva raiada de sol: casamento de raposa, ensinaram-lhe quando criança. Na quinta-feira, ainda não se acostumou ao silêncio, à ausência do toc-toc dos tamancos na cerâmica, ressonando em seu despertar, e do vazio dos olhos dela e seus cílios grandes sorrindo para o beijo-borboleta no rosto dele adormecido sobre o travesseiro. Mal suporta a ausência do silêncio, quando antes ela se penteava no espelho oval da cômoda, ainda refletindo o primeiro dourado do amanhecer. Não sente fome, pelo meio-dia, não sente fome. Uma faxina na casa. Depois, reler velhas cartas, com seu conteúdo para sempre danificado. Recupera mentalmente os atos da terça-feira: um beijo, até mais tarde, ela dissera, até mais tarde.
Após um dia branco, a noite da sexta-feira esfria. Não foi trabalhar, e o pássaro o observa de lado, quando ele passa do quarto para a área de serviço e da área para o quarto, levando e trazendo roupas e lençóis. Dorme cedo, cansado. Em algum instante de seu sono, estende o braço para o lado da cama onde ela se deitava. Ela: hipotenusa de cetim de bruços no colchão, durante muitas e muitas tardes esquecidas. Ele: o cateto oposto, sentado na cama, olhando o corpo da mulher zebrado pela luz das persianas, após conversas e brigas, que acabavam em longos silêncios. 
Acorda de madrugada e fica olhando a escuridão diluir-se na claridade cinzenta. Volta a dormir, e o hábito do sábado o desperta outra vez para o quarto de luz intensa e as crianças brincando e gritando na rua, a janela aberta. Mais tarde, ouve pela primeira vez na semana a primavera-imitadora cantar na gaiola – ela se calava docemente à flauta do passarinho, confusa floresta de vários pássaros juntos. O sábado à tarde: silêncio, livros, solidão. Quebra o telefone.
Praia, sozinho, no domingo, e esse mar esmeralda que acaricia o céu dentro dos olhos também cor de esmeralda. Mais tarde, com marecéu carmesim, o rapaz volta para casa exausto, com seu corpo salgado cheirando a sol. Move-se na penumbra, como um gato. Acende a luz do quarto e contempla o colchão ainda baixo no lugar onde ela dormia. Descobre um pouco de ternura no guarda-roupa: um par de tamancos gastos, a letra formiguinha num bilhete e um pacote de absorventes devassado. Por quê? Por quê não com o marido?, se pergunta, sem pensar em outra coisa.
Também descobre, murcha num canto da gaveta, uma calcinha azul: única seda em seu caminho. Agora terá a vida inteira para se perguntar.

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