quarta-feira, 11 de maio de 2016

OTTO MARIA CARPEAUX-2

UMA VIDA AVENTUROSA E O OPERÁRIO DA CULTURA

Ronaldo Costa Fernandes

Otto Maria Carpeaux

            Otto Maria Carpeaux teve uma vida atribulada politicamente antes de chegar ao Brasil. Vivia em sua cidade natal e tinha alto cargo no governo local. Com a anexação (Anschluss) da Áustria pela Alemanha nazista, Carpeaux fugiu para a Antuérpia, Bélgica, em 1938. Ali, no mesmo ano, trabalhou como jornalista e publicou o livro Dos Habsburgos a Hitler. Já havia ele publicado alguns livros na Áustria, entre os quais, O caminho para Roma. Aventura e vitória do espírito, em 1934, e A missão européia da Áustria. Um panorama da política exterior, em 1935.
            Atuando principalmente no final do segundo e terceiro quartéis do século XX, Carpeaux não apenas trouxe em sua bagagem de exilado toda a vasta cultura humanística européia, mas também se aclimatou e esteve atento à produção literária brasileira. Chegou ao Brasil em 1939, mas demorou a ingressar no meio literário, já que andou pelo Paraná e, depois, por São Paulo. Foi Álvaro Lins, no Rio de Janeiro, quem lhe abriu[1] as portas da vida cultural brasileira a partir de uma carta de Carpeaux comentando-lhe um artigo.
            E aí começa a intensa produção na imprensa e em livros, no plano das idéias e, principalmente, no da crítica literária. Em 1942, publica o livro de ensaios A cinza do Purgatório, em que estuda longamente autores e as idéias de alguns pensadores, além de escrever ensaios curtos sobre música.
            Nesse mesmo ano, já está integrado no meio intelectual brasileiro, a ponto de dirigir a Biblioteca da Faculdade Nacional de Filosofia. Ainda em 1942, naturaliza-se, latinizando à francesa – Carpeaux – o seu sobrenome de origem (Karpfen). Até o final da vida, em fevereiro de 1978, contribuiu de maneira superlativa para o alargamento de horizontes da cultura e da crítica literária brasileiras.
            A bibliografia de Carpeaux é significativamente extensa se levarmos em conta os números de páginas escritas e incluir a História da literatura ocidental e os inúmeros artigos de imprensa. Carpeaux, em 1955, publica Pequena bibliografia da literatura brasileira. Era um ato de ousadia para quem só estava pouco mais de uma década no Brasil e em contato com a literatura do novo país em que passou a viver. Um ano antes de publicar a História da literatura ocidental, aparece Uma nova história da música (Rio, Zahar, 1958). Mais tarde a bibliografia engordará com volumes como, entre outros, Livros na mesa (Rio, Livraria São José), A literatura alemã (São Paulo, Cultrix, 1964), A batalha da América Latina e O Brasil no espelho do mundo (ambos no Rio, pela Editora Civilização Brasileira, 1965). Em 1966, as Edições O Cruzeiro publicam o sétimo e último volume da História da literatura ocidental. Em 1977, fez correções e ampliou sua obra enciclopédica e, em 1978, começa a publicação da segunda edição da História da literatura ocidental, pela Editorial Alhambra. Depois de vários distúrbios cardíacos e outros problemas de saúde, Carpeaux falece em 2 de fevereiro de 1978. Seu último livro é póstumo: Alceu de Amoroso Lima por Otto Maria Carpeaux (Rio, Graal), publicado no mesmo ano.
            Voltemos ao objeto desta introdução, ou seja, a História da literatura brasileira. De janeiro de 1942 a novembro de 1945, Carpeaux escreve a História da literatura ocidental. O livro, por diversas questões alheias à vontade do autor, predominando a cautela pânica diante do volume de cerca de cinco mil laudas datilografas por Dona Helena, mulher do autor, demandou um esforço sobre-humano. As laudas eram beneditinamente divididas em quatro faces onde ela datilografava em espaço dois o texto principal e as notas em espaço um a fim de que o marido as revisasse. O livro só começa a vir a lume, pelas Edições O Cruzeiro, em 1959. O escritor Herberto Sales, diretor das Edições O Cruzeiro, chamou-a de monumental. Outra edição desta História da Literatura Ocidental foi realizada pela Editorial Alhambra, nos anos 70. A editora Alhambra, preciosidade da indústria livresca, realizou verdadeira proeza ao lançar uma obra de oito volumes, somando cerca de três mil páginas[2].
            Ao sair do prelo a edição revista pelo autor da História da literatura ocidental, pela Editorial Alhambra, Carpeaux já havia falecido. Depois de uma vida atribulada, dedicada ao jornalismo e à crítica literária, Carpeaux ingressou na última etapa de sua vida, em 1968, segundo observação de Olavo de Carvalho. Deixa o mestre austríaco a crítica literária e passa a se dedicar a assuntos de cunho político. Ao final da vida, ficará restrito, para ganhar a vida, a redigir verbetes para enciclopédias.


[1] Para que se tenha da biografia cultural de Otto Maria Carpeaux uma idéia mais profunda e abrangente, sugere-se a leitura do vigoroso ensaio que Olavo de Carvalho escreve como introdução aos Ensaios Reunidos, Ed. Topbooks, 1999.
[2] Joaquim Campelo Marques, na 2ª edição da História da literatura ocidental, agradece por ordem alfabética invertida, a vários colaboradores que, por amizade e simpatia ao projeto, ajudaram a publicar a obra. Os agradecimentos foram feitos a Walcyr Alves Ribeiro, naquela época vendedor de livros, Victor Cavagnari, Mauro Garcia Correa, Mário Pontes, José Augusto Ribeiro, Jorge Hori, Gilberto Meneses Cortes e Carlos Vilar. A todos o editor da 2ª edição renova os agradecimentos e explica que a inversão da ordem alfabética obedece à decisão de registrar em primeiro lugar o mais humilde dos amigos que o ajudaram, balconista de livraria, Walcyr, ficando no fim o diretor de banco, Carlos.

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