segunda-feira, 4 de abril de 2016

Calunga, conto de Ronaldo Costa Fernandes


(Mudei o final do conto "Calunga". Publicado no livro Manual de tortura, sai aqui postado com outro desenlace)







Todo esporte é bom para o corpo, mas o boxe não é recomendado para quem quer ter boa memória. Faço força pra ser claro: se faltar algum detalhe é que a memória me trai. A memória tem um punho vigoroso, mas às vezes soca o vazio. O que é pra ser lembrado se esquiva. Nada pior que alcançar o queixo do nada. Tudo começou com as minhas duas paixões: o boxe e a música erudita.
Seria contraditório? Sei não. Há muito punho numa nota, muita harmonia num jab. Uma luta de doze assaltos, de peso-pesado, é uma ópera. Uma luta de amadores, três assaltos com protetor na cabeça, uma ária.
Muitos devem estranhar dois prazeres tão disparatados. Mas gosto não é ouriço ou porco espinho: os gostos são animais domésticos. E doméstico deveria continuar meu gosto por ópera. Mantê-lo escondido.
– Deixa de lado essa coisa.
– Que coisa?
– Música clássica.
– Música erudita.
– Como?
– Esquece.
– Não dá certo com boxe.
– Já ouviu um concerto para oboé de Mozart?
– Acaba te tirando a garra.
Se tivesse que fazer alguma comparação, eu escolheria um saco. Toda vez que treino e bato no saco, penso que estou batendo em mim mesmo. É, em mim. Soco soco soco. Tem lutador que imagina o inimigo. É bom para relaxar e, ao mesmo tempo, incitar o sujeito para a luta. Mas eu não. Penso em mim como aquele saco. Porrada porrada porrada. Sem braços pernas cabeça. Um saco de vísceras, apenas. Um saco de vísceras. É uma desgraça você se considerar um saco de vísceras.
Mas não ganhava a vida com luta de boxe. As lutas não davam para sobreviver. Fazendo as contas, acabava pagando as lutas. Não pagava as lutas diretamente, não. Pagava a academia, pagava meu treinador. A gente não ganhava nada ainda porque eu era amador. Um amigo meu dizia que pagava pra levar porrada. Está certo que nem sempre ganhava, mas também não era assim. Não pagava pra levar porrada.
– E então, Calunga, o pastel sai ou não sai?
Esta era outra ironia. Você veja, trabalhava numa pastelaria para ganhar a vida. Também na pastelaria não podia falar que gostava de música erudita. E bem, talvez eu até pudesse falar, mas meu patrão não gostava de música. Nem de clássica, como eles dizem, nem de popular. E coisa e tal. Digo que talvez pudesse falar porque tive um patrão italiano numa lavanderia que o homem gostava de ópera. Mas italiano gosta de ópera. Italiano conhece ópera. Seja ele ignorante, inculto, siciliano de merda, o filho da puta de um mafioso, mas o italiano, mesmo operário, gosta de ópera. Não aqui, na pastelaria, desse china nem dos companheiros de trabalho, gente rude. Bando de nordestino. Também sou nordestino. O nordestino não emigra. O nordestino é eterno retirante. A seca, mesmo que o bicho seja do litoral, está entranhada na alma. Não tem gente apátrida? O nordestino, como eu, é sem-estado. Nem lá nem cá. Um ser que migra pro limbo. Porra, pro limbo.
– Vou vencer, meu camarada, um dia vou vencer – me confessei com um colega de trabalho.
Passava a maior parte do tempo ali, depois chegava na academia para treinar e estava morto de cansaço. Isso é lá vida? Ainda por cima, dormia mal. Os pesadelos.
Meus pesadelos eram estranhos. Todos pesadelos são estranhos. Sonhava com minha mão inchada. Não usava luva para lutar. Lutava de mão nua. Sabe por que lutava de mão nua? Porque elas estavam inchadas e vermelhas. Depois o cheiro de gordura do caldeirão onde fritava os pastéis. Logo minha cama cheirava a gordura, meu corpo cheirava a gordura. Não tinha namorada. Como um sujeito que cheira a gordura pode ter namorada?
– Sabe meu medo?
– Você é cheio de medo, Calunga.
– Meu medo é de que meus nervos fiquem amolecidos.
– E como isso pode acontecer?
– A música não altera em nada, ou melhor, até me põe mais excitado. As óperas me põem louco, fico uma fera. Queria lutar com ópera ao fundo. Já imaginou?
– E por que os nervos vão amolecer?
– A gordura.
– Que tem a gordura?
– A gordura pode entranhar nos nervos.
– Você está falando, como se diz, em forma de metáfora.
– Que metáfora porra nenhuma.
– Então?
– Sonho que o azeite, o óleo, a fritura, tudo isso chegue, fisicamente, lá dentro de mim e amoleça os músculos.
Acabei me profissionalizando e deixando a pastelaria. Moro num quarto sem janela. Às vezes penso que estou num caixão. Um caixão grande. Passarei a eternidade no caixão grande, enterrado vivo. Quem mora num caixão não pode saber se é dia ou se é de noite. O diacho do caixão. Nem dia nem noite.
Me aproximei do meu técnico que tinha o apelido de Cara de tijolo.
– Até ontem você não acreditava em mim.
– Agora acredito.
– Mas sou eu agora que não acredito em você.
– Quer ganhar dinheiro?
– Quem não quer?
– Chegou a hora. Você está preparado.
– Não era o que você pensava até a semana passada.
– Houve um fato novo.
– O único fato novo que eu conheço é que perdi o emprego nessa brincadeira.
– Temos uma empresária.
– Empresária?
– Sim, no feminino, é mulher. A dona quer te patrocinar.
– Não está cheirando bem.
– É um caso complicado, mas eu não quero entender os motivos lá da dona, eu quero é a grana dela. A grana dela deixou você sair do emprego, se dedicar mais aos treinos e já tem luta marcada.
Eu ganhava luta atrás de luta. Lutava com adversários magros, sem bíceps, que caíam feito moscas. Me levantavam o braço. O vencedor é. Palmas minguadas. Auditório de desocupados. A maioria de jogadores, apostadores de tudo: rinha de galo, corrida de cavalo, Fórmula 1, cão atrás do coelho, quantos carros vermelhos passam debaixo de um viaduto do Aterro do Flamengo, quem vai dar o último boa-noite no Jornal Nacional, apostadores de tudo. Quis conhecer minha empresária. Mas Cara de Tijolo adiou. Até que não pôde mais.
– Desculpe a mão suada – eu disse.
– Fazia tempo que gostaria de conhecer você. Mas andava muito ocupada, sem tempo, até que seu treinador falou que você queria me conhecer. Aqui estou, em carne e osso. E, se me permite uma brincadeira, em mais carne que osso.

Eu ri. Gostei dela. Estávamos na academia. Eu ficava meio encabulado de receber D. Violeta ali na academia. O cheiro de suor e poeira, o lugar meio escuro, cheio de homens suados. De vez em quando voava um palavrão. Voava como um soco no ar. (Quem não conhece boxe não imagina o que é dar um soco no ar. O adversário se evaporar. Uma nota dissonante. Algo desafinado, é, algo desafinado.) A academia tinha um cheiro de azinhavre e enxofre que não conseguiam se desprender da gente. Como a gordura quando trabalhava na pastelaria. Só que a gordura enfraquecia. E o cheiro de enxofre me dava força. Era como se eu fosse, mesmo deitado, vinte e quatro horas lutador de boxe, é, o cheiro de azinhavre e enxofre.
Foi ela mesma quem quis me ver treinando.
– Nós temos muita coisa em comum – ela disse.
– Como assim? A senhora luta boxe?
Ela riu.
– Não, não luto boxe.
– Então aprecia o esporte.
– Também não.
– Então?
– Sei que você gosta de ópera. Fui cantora lírica durante anos. Fiz carreira, viajei. Agora, velha, perdi a voz.
– E por que me escolheu para empresariar? Não foi porque temos o mesmo gosto, ou foi?
– Um dia você saberá.
– E por que tanto segredo?
– Não é bem segredo. Enfim, você quer ou não quer o meu dinheiro?
– Claro.
D. Violeta usava dentadura. O som saía chiado. Ela espalhava perdigoto.
Tinha o colo alvíssimo e cheio de jóias. D. Violeta era rica pra chuchu. Mesmo estranhando o interesse dela, aceitei o dinheiro que eu não era bobo. Quem ia deixar de aceitar grana para realizar o grande sonho da vida? Mas algo nela despertava meu lado cínico. Havia nela um colar de suspeição. Se me divertia e lhe era grato, havia o furto de uma verdade escondida. Que queria D. Violeta de mim, hein, que queria ela de mim?
O tempo foi passando e eu, o galinho, ia ganhando luta atrás de luta. Até o dia em que ganhei do Negro Bimba. Ora, o Negro Bimba era conhecido como o Colosso Negro. A nossa profissão está cheia de lugar-comum. Eu não inventei o boxe, logo não inventei os nomes dos lutadores. Mas, bem, dizia eu que o Negro Bimba era o Colosso Negro. Eu não podia, mirrado que sou, derrubar o Negro Bimba. Não, não podia.
Peguei o Cara de Tijolo no canto, apertei o bicho. Que merda tá acontecendo? De que você tá falando?
– Do Negro Bimba.
– Que tem o Negro Bimba?
– Eu não podia vencer o Negro Bimba.
– Mas venceu.
– Tem alguma coisa estranha aí.
– Tem. Você é o azarão. Já ouviu falar de azarão? Você é o azarão.
Apertei mais, mais, mais mais mais e aí Cara de Tijolo abriu o jogo. Eu sabia que apertando Cara de Tijolo, ele acabava confessando. Tem sujeito que não sabe conviver com pergunta. A pergunta arde, é aguda, tem nota alta difícil de alcançar. Cara de Tijolo podia levar um soco, mas não suportava uma pergunta. Uma pergunta dessas, sabe como é que é? Uma pergunta.
– A velha é maluca.
– Que é maluca eu já tinha percebido há muito tempo.
– É ela quem paga para teus adversários perderem.
– Puta merda!
– E não acaba aí.
– Não?
– Você é herdeiro de uma grande fortuna.
– Olha a brincadeira. Fala sério, camarada. Não se brinca com essas coisas.
– Não, não, é verdade. Tua mãe trabalhou na casa dela quando mocinha.
– Como tu sabe tudo isso?
– Ela me contou.
– E por que contou?
– Eu também desconfiei dela, mulher fina, empresariar um pé-rapado como você.
– Não ofende.
– Mas é a verdade. Qual o interesse dela?
– E qual o interesse dela?
– A mulher se apresentou nas maiores casas de espetáculos do mundo. Eu não entendo disso. Só repito. Cantou na Argentina, no Chile, na Espanha, na Venezuela.
– Ela, a branquela?
– E aí descobriu que era tudo uma farsa.
– Farsa?
– É, farsa, que não era boa cantora, que era uma fraude.
– E então por que cantava nesses lugares?
– O marido, um italiano riquíssimo, amante também da ópera. O marido pagava para ela ser contratada.
– O marido.
– Seu pai, meu camarada.
– Não estou entendendo patavina.
– É muita coisa. Deixa eu organizar minha cabeça.
– O marido pagava para ela cantar?
– O marido pagava para ela cantar. Ela tinha voz, mas não era uma voz para todo aquele estardalhaço.
– E aí?
– E aí ela descobriu e ficou uma fera.
– Com razão.
– Mas só descobriu quando o marido morreu.
– E onde entra meu pai?
– A dona Violeta não podia ter filho. Tua mãe trabalhava na casa de D. Violeta. Tua mãe engravidou do italiano. Aí sumiu com o garoto. O garoto era tu. Tua mãe tinha medo de que o italiano e D. Violeta ficassem com o garoto, entendeu?
– Então eu sou herdeiro da fortuna do italiano.
– É.
– E a história acaba aí?
– Não. O velho deixou no testamento que D. Violeta pra receber a maior parte da herança tinha que descobrir onde estava o filho perdido.
– Eu.
– Sim, você.
– Bom, agora eu pego o dinheiro.
– Não, não pega o dinheiro.
– Como assim não pego o dinheiro? Não sou filho do italiano?
– D. Violeta morreu.
– Morreu?
– Morreu faz uma semana.
– E por que você não me contou?
– Eu não podia contar porque você precisava ganhar a luta. Ganhar pelo menos uma luta.
– Mas se ela pagava para eu ganhar. Não entendo.
– Ela pagava para você ganhar enquanto estava viva. No testamento que ela deixou...
– Ela também deixou testamento?
– Ela também deixou testamento.
– E o que diz o testamento?
– Que tu só ganharia a herança se vencesse uma luta.
– Uma luta?
– Uma luta. Vencesse por conta própria uma luta. Sem suborno, sem grana por fora, sem pagar o adversário. Uma luta só. Você só vai receber a herança se vencer uma só luta sem pagar para ganhar.
Esta foi a vingança de D. Violeta. Vingança contra a empregadinha do italiano. Vingança contra o marido, que pagava para ela cantar. E, por fim, vingança contra mim, porque repetia o mesmo método do marido. O bastardinho teria de vencer uma só vez, por conta própria. Era a vingança. A matrona, em ritmo de ópera-bufa, me pregava uma peça.
O testamento é uma luta de boxe em dois tempos. Um lutador que não se vence, porque está morto e sua vontade, que se transforma numa espécie de soco, atinge o outro lutador. Uma luta sem rounds, sem lonas, sem luvas. Mas uma luta atroz, feita de vontade e de genes, de pequenos jabs de letras ou um uppercut na vaidade daquele que, vivo, ainda se agita num ringue vazio.


imagem retirada da internet

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