sexta-feira, 29 de julho de 2016

Delito do corpo, poema Ronaldo C. Fernandes





Igor K Marques
Por que certos amores
insistem em não envelhecer?
Por que alguns amores permanecem
como a mancha que nenhuma lavanderia apaga?
Não se vergam ao tempo
feitos de flandres humano,
não oxidante,
flébeis e olorosos
igual à matéria de jardinagem
que adubasse flores de carne?

Meu querer se sujeita ao alumínio,
dúctil, se muito dobrado, rasga.
Meu corpo é ainda mais frágil
que o alumínio: se ilude em ser papel.
Quando puder,
escritura de minha posse,
doarei minhas pernas
ao asilo das cadeiras
e minha cabeça
aos vagões soturnos do metrô
que passam vazios
e não param na estação
porque não há ninguém para descer,
não há ninguém para subir.

Tive uma paixão – esta sim –
que cumpriu o ciclo vulcânico:
explosão, lava e, ao final,
Pompéia soterrada.
Guardo o real amor como um lenço
que volta sem uso para casa.
Quem sabe algum dia
a loucura arranque
o que não ousa nascer,
o que sobrevive morto,
e o amor outra vez
se aliste na tropa do meu corpo?
O único crime que cometi foi a vida.






(do livro A máquina das mãos, Ed. 7Letras, Rio, 2009)



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