quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O abutre albino, poema RCF





A noite dorme só com um olho aberto.
Na caserna do pasto
se perfilam as árvores-soldados
vestidas de verde oliva.


No campo, nada adormece
além dos homens e das pedras.
O sono reparador das pedras:
inexato e fluido.
O sol, ao se pôr, recolhe as tralhas
– panelas velhas de alumínio do corpo,
restos do couro da frustração,
a bolandeira gasta da fome –
e se acocora atrás da mata
à espera de outro dia
quando sai a lume
e espreguiça seus dedos rosa que Homero pintou na Odisséia.

O sol campesino é marcial,
marcha nos trilhos do céu,
um vagão só fornalha.
Ao se pôr, o sol não se deita
nem puxa o cobertor de veludo negro.
Fica ali mesmo, sem sono.
Por isso o sol é triste e bufa no espetáculo de fogo
e queima com dó no peito.
Barítono da epopéia dos nadas,
tenor do deserto,
soprano dos sentimentos escusos.
O sol é o avesso
com seu monóculo cego.
Linear e bacharel,
doutor em cruzes,
magistrado das plantas,
falastrão no tribunal das urzes.
No céu despido, voam as aves negras de rapina
sob a vigilância do abutre albino:
o sol, imóvel, sobrevoa a presa,
maligno e único com suas garras de hidrogênio.

(do livro Terratreme, Prêmio da Fundação Cultural de Brasília)

imagem retirada da internet

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