domingo, 4 de junho de 2017

Poema para o esquecimento, RCF




Se tu vês esta porta
é porque teus olhos têm memória.
Se tu não tens a chave
é porque tua memória não tem olhos.

Tudo é um imenso galpão vazio,
não há cômodo ou parede.
Estás imerso no coma
que é um rio sem margens.

Lagoa de sombras
deliquescendo o que já é desfeito,
pescadores de plumas,
incêndios que não queimam,
a maturidade que perdeu seu gume.

Este que não se aloja
em nenhum lugar do cérebro,
máquina de vapor,
está em todo corpo adormecido:
não há memória de outros corpos.

Este que é a permanência
do quarto escuro da infância
não entende porque o parafuso
não se fixa na treva.

É como velar um morto
e não se ver o corpo.

É como brincadeira de esconder,
quem nos procura não quer mais brincar,
ficamos no esconderijo escuro da mente,
não há quem nos venha buscar.

(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)

imagem retirada da internet: recorte de autoretrato de Lucian Freud

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