quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Fotografia, poema de RCF




Ando torto
porque meu coração pesa mais
meu lado esquerdo.
Quando, na seca,
a terra muda de plumagem,
caem as penas verdes
e aparece o couro marrom da pele,
meu ânimo planta bananeira.

Nesses dias amanheço
doído de tanto existir.
Talvez meus sonhos tenham pernas demais.
O dia tem sua maneira solar
de dizer que está bom.
Cultivei a horta dos diários.
Meu coração
é um músculo sem força
de vontade.
Meu coração late em espanhol.
Tom rascante. Solo de arame
que corta o pescoço das notas
com seu único bordão.

Meu coração fala pelos cotovelos.
Uma conversa entre cotovelos
é cheia de dores.



(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

(imagem internet: latoday)

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