quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Os pés, poema RCF


foto: Jochen Weber




É no bailado que nasce o vinho,
é do xaxado que vem o cacau.
É música dos pés a amassar
a uva e a espalhar o grão grosso do cacau.

O homem ao inverso
vai transmudando a fruta em álcool,
o arrasta-pé do peão
esquenta o cocoa nut
que vai parar na boca americana.

É a inteligência dos pés,
a mestria da dança agrícola,
o ritmo do futebol sem bola,
dança flamenga sem tablado,
que dá o que abaixo do calcanhar de Aquiles
a fortaleza.
É Midas que toca com os pés
e transforma o fruto em alimento
e embriaguez
– ouro do corpo e do espírito.

O bípede pisa antes que
uva ou cacau
o mistério da transformação
da natureza onde ele, homem,
em nada se transmuda,
sendo o resto da vida
bicho e homem com a mesma
tessitura de casca de uva
e a mesma amargura inicial
do cacau.



(Terratreme, 1998)
 

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