sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Monjave, poema RCF





No deserto de Monjave,
há um cemitério de aviões.
Poeira vazio seco vento estéril
Vento dolorosamente seco do deserto.
Vento cassino
vento jogador
roleta de poeiras
vento máquina
que vem de Las Vegas.
Lá estão os aviões,
enfileirados em sua cova
cova de aço, cova de asas
apodrecendo
do verme da oxidação.
No deserto de Monjave,
os aviões têm sua lápide mais comercial:
a marca da empresa.

Em outros desertos,
não se poderia
expor o humano à oxidação,
os mortos não têm corpo de aço,
homens não podem fazer de seu corpo cova,
os vivos não suportariam
conviver com o horror
de ver os mortos como os aviões de Monjave
a lembrar-lhes a inconstância do minuto
e a perenidade do fim.
Os mortos devem ser enterrados
bem enterrados, bem cobertos
para esconder o horror insalubre.
Mortos devem ser enterrados
e, medo maior dos vivos,
para que não tragam
em sua carcaça como os aviões
no corpo sem asas
seu próprio logotipo: o esqueleto.




(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

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