quarta-feira, 13 de abril de 2016

Entrevista Memória dos Porcos







ENTREVISTA AO JORNAL O ESTADO DO MARANHÃO





P: O que influiu ou modificou em sua vida a permanência tanto tempo fora do Brasil dirigindo o Centro de Estudos Brasileiros em Caracas, na Venezuela?
R: Há uma coisa curiosa, para mim, na minha estada em Caracas. Primeiro, o fato de passar nove anos na minha vida. Ora, durante nove anos, estando no Brasil ou fora dele, você se modifica, vive novas experiências. Outro dado é o contato com a língua. Muito próxima do português me abriu um universo de autores e de imaginário que desconhecemos aqui. Tentei entender o comportamento mental de um povo que idolatra a terra-mãe, a Espanha, ao contrário de nós em relação à Portugal, tem outra música e outra História. Se, ao mesmo tempo em que me ensinou muitas coisas, também me fez entender melhor o Brasil. Mas confesso que houve um momento, principalmente nos últimos anos que embotei, não conseguia mais escrever, misturava as duas línguas, escrevia não propriamente num portunhol, mas numa língua portuguesa que tinha a sintaxe espanhola.
P: Você chegou a participar da vida cultural venezuelana?
R: Dava aulas na principal universidade do país, a Universidad Central de Venezuela, a USP de lá. Publiquei uma novelinha em espanhol pela Monte Ávila Editores, escrevia artigos para jornais e revistas, mas sabia que aquilo era provisório, passageiro (não é à toa que o título de um dos meus livros de poesia se chame Eterno passageiro). Poderia ter sido esquecido lá, mas sabia que nunca seria um autor de língua espanhola porque não era um Nabokov ou um Conrad que, um sendo russo e outro polonês, estão hoje como grandes autores da literatura de língua inglesa. Por isso voltei.
P: Você publica poesia relativamente tarde. Antes você era visto como prosador, autor de livros como João Rama, prêmio APCA de Revelação de Autor, e de O morto solidário, com o qual você ganha o Prêmio Casa de las Américas. O que o fez publicar poesia?
R: Meu primeiro livro de poesia foi Estrangeiro, de 1997. De lá para cá são seis livros publicados. Não vamos confundir publicação com produção. Sempre escrevi poesia. Creio que tenho mais livros de poesia do que de ficção. Só que pensava que ainda não estava maduro para publicar poesia. Esperei o tempo exato, penso eu, da maturação. A prosa requer fabulação e a poesia me exige mais ritmo, musicalidade e construção metafórica. Não ia passar a vida inteira sufocando o poeta.
P: O que prêmio da Academia Brasileira de Letras para o livro A máquina das mãos representou para você?
R: Quando se ganha um prêmio, corre-se para saber o júri. E o júri era um júri que eu respeitava. Além do prêmio em dinheiro – sempre bem vindo –, havia o reconhecimento de um trabalho. O poeta vive de migalhas, de uma distribuição quase artesanal, e quando recebe um reconhecimento sente que o trabalho não foi em vão. Contudo, acredito que os prêmios vêm e vão, o que fica com o tempo é a qualidade da poesia. Ao longo da história da literatura, muitos autores que não foram premiados sobrepujaram os premiados. Que prêmio ganhou Sousândrade?
P: De que fala Memória dos Porcos e o porquê deste título?
R: Geralmente as pessoas fazem essa pergunta (sobre o tema) quando se trata de prosa ficcional. Mas não fujo da pergunta e creio mesmo que valha a pena. Os livros de poesia têm a especificidade de tratar do humano, da condição humana, do estar-no-mundo. E Memória dos Porcos não foge à temática geral da produção poética. Quanto ao título, tem sido uma pergunta recorrente. De uma maneira geral não gosto de explicar meus títulos pois creio que os leitores podem ter uma interpretação melhor daquela que pensei. Mas posso dizer a minha, sem excluir a do leitor: Memória dos Porcos tem a inspiração inicial, no título, de usar a palavra memória que é recorrente na literatura brasileira. Os porcos ficam por conta um pouco do excluído, do não aceito ou daquilo que não seria considerado literário. Mas, ao fim de tudo, é apenas um título como outro qualquer.
P: Uma pergunta clássica mas que acredito tem que ser feita para os autores. Você poderia explicitar algumas de suas influências?
R: Geralmente, quando o autor ouve esta pergunta de imediato relembra os escritores que leu, admirou, procurou aproximar-se ou repeti-los. Eu diria que esta é a primeira e talvez a mais importante. Mas há outras influências que não são aparentes. A segunda influência seria a própria cosmovisão do autor, a maneira de encarar não só a literatura como a realidade que o cerca. Nesse segundo caso de “influência” estariam desde os filmes que o impressionaram, as músicas e compositores que admira e outras mídias e mesmo uma “filosofia” de vida. No terceiro caso de “influência”, eu colocaria as chamadas por mim de “influências por negatividade”, ou seja, o autor é “influenciado” por aquilo que ele despreza. Esta última “influência” é uma afirmação por intermédio de uma negação. Ele rejeita determinado comportamento, determinada escola, determinado estilo, certo maneirismo aqui, muito beletrismo ali, enfim, toda uma gama de literatura que não entra em sua Paideia, todo um mundo de negatividade, mas contribui para sua afirmação e sua positividade.

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