quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Medo de voar, poema de Memória dos Porcos


Os aviões estão parados no ar
como pássaros que se aninham
nas nuvens, rochas brancas de névoas.
Só um instrumento o homem necessita:
o altímetro para medir
a altura da sua queda.
Se fosse trezentos, trezentos e cinquenta,
fretaria um avião de eus para voar.
Mas não tem nem certeza
de que viaja no seu lugar vago.
O corpo que carrega
é como camisa emprestada,
em algum momento,
sonha que terá que devolver
camisa ou corpo.
Quando está só
nunca se acompanha.
Ser trezentos deve ser
muito barulhento.
Não se ouve
e por isso é surdo à felicidade
que é multitudinária, manche,
e só tem posição para subir.
Já o sonho é uma aeronave
perigosa porque só tem o instrumento
do inconsciente.
E o inconsciente não costuma ser bom piloto
e gosta da turbulência dos abismos.
Dentro dele não há imagens moventes
como nos filmes que são sucessão de fixidez.
Dentro dele, só há fotodrama.
Nada se move, além, é claro,
surrupiando, a velocidade da morte,
zás, um segundo, e oxida o sonho.

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