terça-feira, 12 de julho de 2016

Perigosa manhã, poema Memória dos Porcos


 

 

 
O dia nasceu prematuro,
os bracinhos de galhos secos,
o cobertor de lã cinza
cobre o corpo franzino da manhã,
o rosto amarrotado de nuvens.
Sob o narcótico do sono,
o sol, com sua luz antibiótica,
briga para arregaçar as mangas do dia.

Viro-me na incubadeira da cama,
a focinheira bafeja ar seco,
como seco é o choro do orvalho das árvores
                                    no estio de julho em Brasília.

O cinza que tudo anula,
desfaz, apaga ou nega
– existência que desconhece a existência –
não logra me trazer de volta à rotina
dos que vão para a enfermaria do trabalho.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


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