quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Empório de cenas, poema RCF


 

 

 

Um inventário de cenas
do passado estão penduradas
no empório da memória,
mas não quero buscar
o instante perdido
no balcão dos anos
– não há tempo,
apenas o presente
que é um trem sem parada.

O médico prescreve:
eliminar o passado
duas vezes ao dia.
Leio a bula:
Composição: 1984 mg
de presente fraturado.

O remédio me extirpará
o apêndice da infância,
que só serve para inflamar.
Deixei de ser o que sou
faz muito tempo e me felicitarão
por me desfazer da vesícula
dos tortos e angustiados.
Terei a anestesia das marchas:
cinco para a frente
e nenhuma marcha a ré.                                       



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



 (foto:vivian maier)

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