quarta-feira, 22 de março de 2017

O ciclope eletrônico: o farol, poema RCF




O ciclope de alvenaria brilha seu único olho
para as naves que são pescadas
pela luz em seu flerte com o mar.

O ciclope não tem Ninguém que o perturbe,
nada que lhe fure o olho da odisseia
e o desembriague da cabeça que roda.

O ciclope eletrônico
criou outros olhos de vidro
a fim de os navios
com seu corpo de casco
não navegar sobre pedras
que não é caminho de navios.

Há tempos que meus olhos de vidro,
sem rumo e escuros, nada enxergam
na noite dos dias e temo a lâmina
das pedras escondidas pela vida
que querem a todo instante cortar
meu casco e criar tumba salgada no cotidiano
que não tem um único olho a me orientar.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

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