terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Cinematógrafo, poema RCF




A adolescência ficou presa
em algum cinema.
Gastou muito celulóide
dos anos no escuro.
Tem um sentimento arrevesado:
o medo de estar hoje no cinema
e sentar-se ao lado do adolescente
que nunca saiu da sala escura.
Ele tinha uma película muito delicada.
Há um cheiro de desassossego no ar.
As nuvens, desfeitas, tomam o caminho
de outros tetos.
Há teto bastante no seu medo.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(foto: rodney smith)

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