domingo, 7 de maio de 2017

Luz em agosto, Faulkner


        



(do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís, Academia Maranhense de Letras, 2016)


                Ardiloso, escritor de inúmeros recursos, Faulkner neste romance, ao contrário dos vanguardistas O som e a fúria e Enquanto agonizo, mostra um narrador mais comportado, usual e tradicional. Todas as partes do romance são narradas em 3ª pessoa. Não há monólogo interior. O monólogo interior até pode ser realizado em 3ª pessoa. Mas não é o caso aqui. O que existe aqui é alternância do foco narrativo.

                Esse discurso tradicional não é desprovido de sua idiossincrasia e Faulkner que aparentemente sugere que vai contar uma história de modo tradicional, ao colocar o foco narrativo em Lena Grove, moça grávida que vai atrás do pai do filho que irá nascer, no Alabama do início do século XX, logo no segundo capítulo aponta para a mudança de foco, acompanhando os vários personagens, sem, contudo, com a ruptura e fragmentação que torna a leitura de Enquanto agonizo, por exemplo, difícil e confusa, pois o leitor terá que identificar quem está falando entre quase dezena de personagens.

                Luz em agosto mostra que Faulkner, mais uma vez, é um grande narrador. Nem todos os escritores têm força narrativa. Joyce mesmo não era um grande narrador. Culto, excêntrico, experimentalista, a prosa de Joyce é intrigante pelo jogo de palavras, a intertextualidade, numa exposição morosa e cerebral das vinte e quatro horas de Leopold Bloom. Mas Joyce é um fraco contador de histórias. (Deixemos Joyce de lado, porque nos interessa aqui Faulkner). Em Faulkner, influenciado por Joyce, não há, principalmente, a palavra porte-manteau que caracterizou, junto com o stream of consciousness, a prosa joycena. O romance de Faulkner mais devedor de sua admiração pelo irlandês é O som e a fúria.

                Outro dado curioso que quero comentar nessa pequena nota sobre Faulkner é o conceito de negro. Há vários negros verdadeiros na narrativa de Faulkner. Cativa-me sobremaneira o fugitivo negro de uma penitenciária em Palmeiras Selvagens que toma toda uma metade do livro que não tem nenhuma ligação com a outra metade onde são narradas as desventuras de um jovem médico e sua esposa numa afastada e derruída mina cujos patrões mantêm a todos numa insalubridade doentia.

                Em Luz em agosto, o personagem principal, aquele em que é o eixo que faz girar todos os personagens em sua volta, é Joe Christmas, um homem que trabalha numa madeireira, pai do filho de Lena Grove. Christimas assassina sua amante e senhoria branca, foge, é perseguido e morto. O negro de Faulkner é branco. É assim com Christmas, abandonado num orfanato e seguindo pela vida solitário e anônimo, é assim com Bon, o personagem “negro” e por isso proibido de casar com uma branca por ser incestuoso e, fundamental, por ter em seu sangue um oitavo de sangue negro no romance Absalão, Absalão. Bon é branco, mesmo na visão do norte-americano de hoje.

                Entre alguns personagens de Faulkner que nos causam estranheza – e o fazem um autor especial também por esta apresentação de um personagem dissonante – está Christmas. Como foi dito acima, Christmas é um órfão que desconhece sua origem racial e é levado a outro reformatório em razão de que a direção suspeita que seja negro e portanto não pode permanecer na instituição para órfãos brancos.

                A psicologia de Christmas é quase nula, embora o autor mostre o assassinato de sua amante e protetora branca por esta apontá-lo como negro e ele próprio julgar que é um crime uma branca promíscua envolver-se com um negro como ele. O resto do tempo, Christmas atua como um autômato. Quase que antecipa o personagem descarnado de psicologia do nouveau-roman francês algumas décadas adiante. Sartre fala em um homem sem Deus, o que me soa estranho, porque os romances de Faulkner, principalmente Absalão, Absalão e Luz em agosto estão plenos de referências bíblicas. A maldição, o fatalismo e a tragédia estão em cada linha desses dois romances que se irmanam. Antes que um Joyce norte-americano, Faulkner é um Shakespeare do Mississipi.

                Sobre taras e fraquezas humanas, Monique Nathan observa que os personagens de Faulkner buscam “se reintegrar seu passado de homem do Sul, libertando-o, primeiro, da fatalidade de que se julga vítima”. Perfeito. E Michel Butor (um dos teóricos do nouveau-roman) aponta: “É o conhecimento da sua própria história, absolutamente necessário para que possam libertar-se da fatalidade do Sul, o que Faulkner fornece a seus compatriotas.” (RCF)


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