segunda-feira, 15 de maio de 2017

Labirinto, poema RCF



O médico sentencia:
problema de labirinto.
Mal sabe o médico
que meu labirinto ciência alguma alcança,
nem lente, instrumento de precisão
– principalmente instrumento de precisão –,
não chegam a encontrá-lo.
Embora tonto, sei que não perdi
nem o labirinto nem a razão
e que estou – como sempre estive –
nele antes que ele em mim.
Melhor seria o médico tirar-me
o labirinto, mas essa ciência
ele não domina, desconhece,
não é matéria de sua faculdade,
mas faculdade da minha matéria.
E, assim, com o labirinto inflamado
– deve ser mais complexo
um labirinto inflamado
que um labirinto que se esconde –
tateio em vão dentro de mim,
pelas paredes ensurdecidas,
sem rumo, tontas, becos sem saída,
corredores tortuosos, chão mole,
e doce tormento de trazer um segredo
– o labirinto em meus ouvidos –
que nem a medicina estuda
nem a ciência cataloga.


(do livro Memória dos porcos.  Rio: 7Letras, 2012)







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