quarta-feira, 18 de maio de 2016

Um homem é muito pouco 18


 
 
 
 
SEGUNDA PARTE
 
Sempre odiei os dentistas. Tenho horror a tudo que se corta no corpo. Mesmo o ato diminuitório de cortar as unhas. Toda vez que corto as unhas é como se cortasse uma parte de mim. Ninguém gosta de que cortem as partes da gente. Um pedaço de dedo, um pedaço de perna, uma orelha ou coisa que o valha. Sinto o cheiro de minhas unhas cortadas. O dentista arranca os dentes e arrancar os dentes é uma forma de mutilação. O dentista mesmo é mutilado. Usa dentadura. É um velho. Um velho já foi muito mutilado. Talvez viver seja ser mutilado ano a ano. Tenho medo de ser mutilado.

Fui duas ou três vezes nele. Não vou mais. Ele treme. Deu-me injeção. Perdi o queixo. Gosto de perder o queixo. Porque perder o queixo quando não se perde o queixo é uma coisa boa. A anestesia é uma brincadeira dos sentidos. A gente brinca de perder o corpo ou partes do corpo. Perdi o queixo durante duas horas. Depois o queixo voltou. Queria era anestesiar meu corpo todo. E não sentir medo. Se a gente não tem corpo, como alguém pode ofender o corpo da gente? O sujeito vem cortar a vida do corpo da gente e não encontra corpo. Quando ele vai embora, o corpo volta.



(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)



 

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