quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A vida é sonho, Calderón de la Barca



Pedro Calderón de la Barca 01.jpg




Ai de mim, ai, pobre de mim!
Aqui estou, ó Deus,
para entender
que crime cometi contra Vós.
Mas, se nasci,
eu já entendo o crime
que cometi.
Aí está motivo suficiente
para Vossa justiça,
Vosso rigor,
porque o maior crime
do homem é ter nascido.
Para apurar meus cuidados,
só queria saber que
outros crimes cometi contra Vós
além do crime de nascer.
Não nasceram outros também?
Pois, se os outros nasceram,
que privilégios tiveram
que eu jamais gozei?
Nasce uma ave e, embelezada
por seus ricos enfeites,
não passa de flor de plumas,
ramalhete alado quando
veloz cortando salões aéreos,
recusa piedade ao ninho
que abandona em paz.
E eu, tendo mais instinto,
tenho menos liberdade?
Nasce uma fera e,
com a pele respingada
de belas manchas,
que lembram estrelas.
Logo, atrevida e feroz,
a necessidade humana
lhe ensina a crueldade,
monstro de seu labirinto.
E eu, tendo mais alma,
tenho menos liberdade?
Nasce um peixe,
aborto de ovas e Iodo e,
feito um barco de escamas
sobre as ondas,
ele gira, gira por toda parte,
exibindo a imensa habilidade
que lhe dá um coração frio.
E eu, tendo mais escolha,
tenho menos liberdade?
Nasce um riacho,
serpente prateada,
que dentre flores surge
de repente e de repente,
entre flores se esconde onde
músico celebra
a piedade das flores
que lhe dão
um campo aberto à sua fuga.
E eu, tendo mais vida,
tenho menos liberdade?
Assim, assim chegando a esta paixão,
um vulcão qual
o Etna quisera arrancar do peito,
pedaços do coração.
Que lei, justiça
ou razão pôde recusar
aos homens privilégio tão suave,
exceção tão única
que Deus deu a um cristal,
a um peixe, a uma fera e a uma ave?
É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.


Tradução de Renata Pallotini. Rio: Ed.Scritta, 1992.

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