sábado, 2 de setembro de 2017

O vento marítimo dos edifícios, poema RCF


Ilustração | Jorge Roa






De meus cabelos sopram os ventos mais agudos,
as  cordilheiras mansas e as planícies do homem.
De tal sorte, estou com os ossos oxidados
que, ao sair de casa,
não posso suportar o vento marítimo dos edifícios.


Ando pela rua torta,
o corpo cheio de musgos
e as pernas cobertas de sacrifícios.
De tal monta é meu teorema
que me penitencio na igreja de prata
que pende do meu pescoço.


Os porteiros escoltam as cargas e descargas
de gente miúda que alisa as calçadas
ou toma corpo na fauna dos carros
ou floresce na estufa dos homens nos ônibus.


Mundo desfeito de inutilidades,
cozido na salsa do mormaço, a cuspir prédios,
descaso e a puerícia dos cadáveres.

Roço a existência.




(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)


imagem: Jorge roa

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