segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Destilaria (e fermentados)


O que se destila neste barril
que se subordina ao grão?
O que se aprisiona nessa caixa de pandora
é o mover dos dentes do lúpulo,
o cavalo fermentado de músculo e remorso.
A cevada do nojo
ou o levedo do fim
amadurece
a máscara de rapina
a cada manhã ou forno do dia.
Rum de carícias,
uísque de negaças,
cerveja negra do esquivo,
a destilaria (e fermentados) vai envelhecendo
o vinho amargo do recuo.
A régua improvável
que menos mede que encomprida,
menos risca que corta,
menos dá lucidez que desafio.
Longa é a jornada dos tonéis
que decantam em seu bucho
e madeira a passagem silenciosa
do tempo maturado no escuro
que por si só é outro barril,
não de madeira, mas de decomposição,
borra e recusa – nada destila
ou fermenta mais que a recusa.                               
(do livro O difícil exercício das cinzas)

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