quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Indústria do amargo-poema RCF





Indústria do amargo



A indústria do amargo desassossego,
a patente do medo, a geringonça

movendo as vísceras dentadas,
a fábrica de desacertos mostra o intestino,
manufatura de mercadoria e dejeto,
o lodo e o pêndulo como destino.

Eis o lodo, barro inútil para fazer gente,
massa fecunda para fabricar o desengano.

Agora a outra prensa do nada:
o pêndulo: que é o mesmo e seu avesso,
ora num lugar, ora em outro,
sem nunca sair de onde está;

preso de si, são dois em um,
um que se faz dois,
para iludir a salmoura da matéria.






(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)



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