quinta-feira, 27 de abril de 2017

O morto solidário, romance RCF




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Agora aquela estranheza. Não era desatento, pelo contrário, se fosse desatento teria deixado passar as cenas desiguais, trocadas, alteradas. Era num meio de semana. O cinema estava vazio. Gostava do Roxy no meio de semana. Uma sala imensa para três ou quatros gatos pingados. Mesmo assim tentei enxergar, no escuro, o rosto das pessoas. Por que não reagiam como eu? Por acaso não haviam se dado conta de que o filme estava alterado?
 Estava ali vendo o filme pela quarta vez. E cada vez que o via, em sessões contínuas, ele modificava uma passagem, uma cena ou um diálogo. O primeiro impulso era vê-lo uma vez mais. Para observar detalhes - filme difícil, de diálogos longos, enigmático. Era louco por cinema. Costumava assistir duas vezes à mesma película. E sempre saía com a sensação de que perdera algo.
 Levantei-me, fui ao banheiro - quatro sessões sem ir ao banheiro, oito horas de filme, um expediente inteiro de filme. Urinei pensando nas cenas. Sempre urinava na louça para não fazer barulho. Mas por que razão urinava agora na louça da privada se não havia ninguém no banheiro? Ao sair percebi que nem o lanterninha nem o bilheteiro estavam no saguão. A baleira tinha apagado o balcão e desaparecido. O mais curioso é que ao entrar novamente na sala de exibição, encontrei-a vazia. Tive medo de algo desconhecido. Imaginei horrores: se gritasse ao ser agredido ninguém ouviria. Quis ir embora, mas a porta do cinema estava fechada.
 Não prestava mais atenção ao filme. As cenas cada vez mais alteradas. Aquele diálogo mesmo que antes era travado entre um camponês e uma dona de hospedagem, agora era repetido por um caixa de banco e uma balconista de lavanderia. A dúvida era saber se realmente o filme se alterara ou algo dentro dele se desregulara e esquecia as cenas anteriores, misturava os diálogos e me surpreendia com o que já tinha visto. Não era muito seguro de minhas emoções, mas aquilo não eram emoções.
 Por fim saí do cinema, tomei um ônibus para o bar onde ficara de encontrar os amigos - e o ônibus vazio. Da janela podia ver as pessoas nas calçadas, em outros veículos. Tinha medo da solidão. Da solidão que esvazia tudo em volta. Mas a solidão podia dar a sensação de vazio e isolamento, mas a solidão não podia mexer nas cenas dos filmes nem esvaziar fisicamente o ônibus. Nem mesmo - a solidão - podia mudar a rota do ônibus. O caminho entre o cinema e o bar era apenas uma reta, uma avenida que mudava de nome ao mudar de bairro mas continuava a ser a mesma avenida. Que diabo fazia o ônibus entrar pelas ruas laterais, estreitas, apertadas pelos carros estacionados de um lado e de outro da rua?
 Agora tudo se completava: o bar de portas fechadas. Dez horas da noite e o bar fechado. O bar mais movimentado do bairro, fechado. Pensei em refazer tudo, sair do cinema, tomar outra vez o ônibus e, quem sabe, encontraria o bar aberto, os amigos bebendo e, ao chegar perto deles, um levantaria o copo de chope e brindaria: ao nosso Rosselini, Roma - o nome do bar era Roma - , cidade aberta.


 Pena estava de robe-de-chambre e tinha o olhar ainda mais estrábico. Sentei na cadeira, levantei, busquei água na cozinha, cada movimento meu era comandado por uma maquininha de dar corda. Até quando teria corda e, depois sem corda, como me movimentar? A mulher de Pena entrou na sala de penhoar e, descabelada, me mirava de boca aberta. Fui ao banheiro. Urinei outra vez na louça da privada. Me veio a sensação de que poderia sair do banheiro e encontrar a sala vazia. Havia deixado o bar - fechado - e me dirigi para o apartamento de Pena esperando que ele estivesse em casa. Pena não só estava em casa como também parecia sair da cama com Leninha. Havia penumbra e cheiro de libido no ar. Pena já me convidara para me acostar com ele e Leninha. O verbo acostar, em espanhol, quer dizer deitar, dormir, foder. Pena usava o verbo em outra língua por ser pernóstico e culto, toda bicha culta - e todo diplomata - adora usar palavras estrangeiras numa conversação vulgar. Mas eu não era homossexual embora ficasse pensando em como seria na cama, eu atrás de Leninha - Leninha era psicóloga, o que eroticamente não interessa nada, mas tinha um belo par de tudo: coxas, seios, orelhas, buracos nasais. Até as coisas únicas de Leninha também me pareciam interessantes - mas enfim eu ficava pensando em como seria na cama, eu, dizia, atrás de Leninha e Pena atrás - ou na frente - de mim. Oh, Deus, a barba aparada de Pena me dava engulhos. O preço para acostarme com Leninha não deveria ser a punição de roçar-me naquele peito cabeludo.




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