terça-feira, 6 de outubro de 2015

Um homem é muito pouco 35



            Pensei em matar Vicentino. Não iria entrar em confronto direto, medir forças. Iria usar a mesma funda de David nele: a traição. Viria por trás com cordão de náilon e enforcaria o bicho. Vicentino deveria ser um bicho desses difíceis de morrer. Ele mesmo contou que durante a guerra viu um vizinho ser crivado de balas, mais de dez, entrar em coma, depois delirar, costurar todas as vísceras e voltar à vida, andando e falando como se não carregasse com ele metade das balas que não puderam ser retiradas. Homens vazados e secos como Vicentino que tinha músculos nas vísceras eram difícil de matar. De súbito me dei conta de que não poderia me converter num Vicentino. Não poderia sair pela vida enterrando corpos, resolvendo diferenças enterrando mortos sob o ladrilho, haveria um momento em que tudo subiria à tona. Não era igual Vicentino e não queria ser igual a Vicentino. Não era angolano, não passara por nenhuma guerra civil, a não ser minha própria guerra.

Alice me contou que eu estava fora, ela estava dormindo. Vicentino abriu a porta para conversar comigo. Pensou que poderia me fazer ouvir suas queixas contra Ariana, o capitão Vaz, o gerente manco, o dinheiro que mais desfazia do que fazia, quando me chamou uma e duas vezes. Não respondi. Não podia ouvir Vicentino me chamar em Copacabana. Eu estava na Rua México. Ele abriu a porta do quarto. A luz pouca acabou mostrando a carne dormida e seminua de Alice. A carne de Alice com pouca roupa era carne cheia de desvios. Vicentino parou diante da estupefação da beleza substancial dela. O problema era que Alice não era mucama, já disse, mucama branca, mucama de Vicentino. Ele tocou na pele branda de Alice. Alice despertou e despertou em mim o ódio que nunca nutri contra Vicentino.

Nenhum comentário:

Postar um comentário