quinta-feira, 13 de julho de 2017

Variações sobre a sombra-1, poema RCF


Imagem | Yang Cao
Deus, dá-me uma sombra
que não esconda, mas revele
o escuro que anda em mim.
Há sombras que germinam na luz;
outras sobrevivem sem que nenhuma luz
faça parir seu duplo de silhueta.
Estas existem não como projeção,
mas a sombra em si
como se a sombra fosse a projeção
de uma sombra imaginária
de uma luz suposta e irrreal.
Há sombras que nascem sombras
e sombras morrerão.
Nenhuma sombra é igual a outra.
Há sombra mentira.
Há sombra enxuta,
há sombra ausente
e sombra de sombra.
As sombras estão nos meus olhos
ou nas coisas?
Esta é a prisão das sombras
de onde não se pode fugir
nem se abrigar.
A sombra expulsa
de seu útero escuro
a placenta de silhuetas.
Flores de sombras
com seu mal escuro
e pétalas de indizível fogo.
A lua mesmo é uma sombra
que mal ilumina.
O que existe depois da sombra
é um espaço negro em que cabem
o pesadelo, o medo, o fulgor negado
e a infinita dor das sombras.
E por ser sombra
naufraga no escuro
que é a água que a mantém
sobre a superfície da sombra.
Há sombra que sobe pelo homem
e sombra que não é falta de luz
nem a projeção de um homem
que já é sombra de si mesmo.

(de O difícil exercício das cinzas, 2014)
Yang Cao

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