segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Um homem é muito pouco 38





Meu primo tinha virado um desconhecido dele mesmo. Fui com minha tia nos hospitais, nas delegacias e no Instituto Médico Legal. O corpo do meu primo era tão pouco que não estava em lugar nenhum. Nunca mais minha tia viu o filho. O filho partiu da mesma maneira que parti da vida de Alice. Sem dar motivo. A gente não precisa de motivo para viver. Mas a existência do corpo morto do meu primo daria a minha tia motivo para ela enterrá-lo em pensamento. Era mais fácil e menos doloroso ter cova no pensamento do que ter ausência onde cabe tudo. Logo eu, cometedor de ausências, recriminava meu primo por não dar o corpo morto dele à vista dela para que minha tia pudesse sair do ônibus, em pé, calorento, ruidoso, de percurso lento e demorado em que ela embarcara fazia anos e nunca mais sairia dele.

Não podia conversar com minha tia, portava muitas vozes dentro dela. Conversava com o corpo morto do filho, conversava com as vizinhas de ônibus, conversava com ela mesma que era a conversa mais demorada e dolorosa. Dolorosa porque ela não tinha respostas para as perguntas que se fazia. Era um diálogo desencontrado e múltiplo como os passageiros demorados e suarentos dos ônibus. Ando com o sentimento índio e carnavalesco de que não pertenço também a casa e à vida de minha tia. Gostaria de ir embora, apertar a mão de um desconhecido e ser levado a um baile do qual nunca mais me lembrarei. A mão do desconhecido nunca mais saiu da minha mão. Por isso ando com as mãos quase cerradas pela rua. Algo ou alguém me segura as mãos e me leva a destinos falsos como um menino fantasiado de índio. Da fantasia me lembro. Sempre lembro das fantasias. Quem sabe dentro de anos lembrarei da fantasia que hoje porto e ninguém percebe, só minha tia que tem pensamento e sensação para corpos que não são mais corpos?
 
 
(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo, Nankin: 2010)

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