segunda-feira, 27 de junho de 2016

O poema, RCF

1


O cata-feijão do alfabeto,
o mata-borrão dos erros iluminados,
a pétala dos acentos.

A palavra pende por uma linha
depois cai
- trapézio -
no emaranhado da teia do verso.

As palavras no pátio do verso,
como folhas mortas,
redemoinham
e, no ciclone do poema,
- cicuta -
o verso se desorienta
pelo corpo vazio da biruta.

Eis que súbito
- como a nudez repentina surpreende -
surge,
e ladra,
persegue meu calcanhar,
pedaço de papel no bolso com telefone ignorado,
o poema.

Ainda não perdeu a goma
das coisas novas;
é apenas sensação,
cinema de sombras,
hiato entre gesto e viver.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet:almada negreiros

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