sábado, 25 de junho de 2016

O viúvo, 2º capítulo










Não sou dos que pensam que a noite apazigua. Mesmo protegido, a sensação é de que há um furto qualquer e que a noite está cheia de roubos que se perpetuam sem que se saiba o quê exatamente foi roubado. Sonhei com ela de forma diminuta. É a vontade que tenho de diminuí-la, digo logo, ela que é tão gigantesca para mim. Então no sonho ela tem o tamanho e a espessura de um cartão de telefone. Coloco-a no bolso da camisa.
 Ando com ela pela cidade. Entro num armarinho que em vez de ilhoses, zíperes, botões e colchetes, vende apenas pernas, mãos, braços e pés mecânicos. O senhor deseja algo, posso ajudá-lo? pergunta o senhor careca com forte sotaque alemão. É o gerente da loja. Enquanto fala comigo esfrega ansioso as mãos. Os lábios são constantemente umedecidos pela língua. Encaro aquilo como licenciosidade. Recuo dois passos, olho para trás, não existe mais a porta por onde entrei.
O armarinho se transforma em imenso galpão e as pernas, pés, mãos e braços mecânicos passam a ser de carne. Estão pendurados como num açougue. Toda a movimentação é de matadouro. Esteiras, ganchos, operários de jaleco e barrete cortam, examinam, selecionam pedaços de gente. Ela, como está no meu bolso, sente meu coração bater mais rápido e pergunta se estou nervoso.
– Você está nervoso, meu bem.
– E não era para estar?
– Eu, ao teu lado, não te dou paz.
– Esta é a maneira de estar ao meu lado?
–Fica calmo.
– Este homem é um maluco.
– Que homem?
– O alemão.
– E por quê?
– Não está vendo?
– Sei, pelos membros expostos.
– São restos de pessoas, é carne humana, e você acha tudo natural. Estou num matadouro, açougue, frigorífico ou coisa que o valha e tudo aqui é perna, coxa, pedaços de gente e você acha tudo isso natural?
– Você se escandaliza com tudo.
– E não é para me horrorizar?
– O horror está aqui.
– Aqui onde?
– Em casa.
– Em casa?
– Olha as frestas.
– Que tem as frestas?
– É uma forma de corte.
– As rachaduras na parede então são cortes como um corte na pele, é isso que você quer dizer?
– Os cortes...
– Você diz as rachaduras.
– As rachaduras são daninhas e nervosas.
– É um apodrecimento das paredes.
– Não, é uma forma das paredes respirarem.
– Se você meter a mão vai esfarelar tudo. A umidade estragou a parede.
– Não é umidade. A parede sua. 
– Ah, a parede sua.
– E outra coisa.
– Diga.
– A casa é um grande intestino.
– Ora, me deixe.
– Quando acontecem as rachaduras é um pouco do intestino também das paredes que quer sair pra fora.
– Me deixe em paz.
– Você já está em paz.
– Desde que você se foi que não tenho mais paz.
– Não seja sentimental.
– E você sabe disso.
A sujeira está sempre em carne viva. Os lençóis são redundantes. Eles têm o meu cheiro. Então me sinto em mim, deito sobre mim, cheiro-me, empapo-me do que sou, do suor do bicho gosmento que à noite rumina. O que em mim rumina não é coisa aproveitável, é o bolo gástrico do pensamento que não me deixa dormir, faz insones as paredes, dá voz à pia. Quando D. Benedita não está aí não entro na cozinha porque posso ser tragado pela fedentina da casa. Todo meu lixo é orgânico. Não existe casca de laranja ou a laranja mesmo. O que está ali é um pouco da boca que a chupou. Do estômago embrulhado que a deglutiu. Sou um animal gorduroso e fescenino, por isso não gosto do bicho cozinha que pode me engolir e não me vomitar mais.

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