terça-feira, 28 de novembro de 2017

Poema contra a cremação, Ronaldo C. Fernandes




Ossos são exímios jogadores de carta
blefam a vida
pois querem representá-la
em sua Bauhaus de marfim.

Ossos são contadores hábeis,
estômago de fogo – cremação –
digere mais rápido
o osso duro que não consegue
– o tempo – vencer por pontos perdidos.

Ossos são inventariantes,
lápis feito apenas do seu grafite
( ainda que o grafite seja
a carne do seu lápis
que, ao contrário do animal,
traz por fora seu esqueleto ).

Ossos são ductos que nada conduzem,
a permanência do concreto
sobre a metafísica da carne,
ossos são a morte que carregamos,
a morte branca, a morte interna,
a morte vazia, a morte em forma de viga,
escondida pela carne
a fim de não nos lembrar
de sua existência dura.



(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)


imagem retirada da internet: francis bacon

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