sexta-feira, 17 de junho de 2016

Um homem é muito pouco 22








            Não gosto de nada eletrônico, as máquinas de jogo me deixam confuso. Minhas mãos são máquinas, meus pés são máquinas, meu corpo todo é máquina. Meus sonhos são meu videogame. Jogo quando durmo e jogo também quando não durmo. Se abstraio a rua e estou no bar do Vicentino posso jogar com a realidade. A realidade é um videogame mais lento e mais perigoso. O mundo mesmo parece a tela de televisão. Soube de um sujeito que morreu de ver tanta televisão. Ficou preso numa cela e não se alimentava. Morreu balbuciando frases de seriados, de desenhos animados, de programa de auditório. A causa mortis foi infarto e falência dos órgãos. Para mim, se eu fosse o médico, colocava como causa mortis overimagem ou assinaria o óbito como falência da realidade. 
            O sujeito morreu de quê?, perguntariam.
            De falência de realidade e infarto de imagem. 
           Já tenho bastante imagem dentro de mim. Não preciso procurar mais imagem fora de mim. Por isso penso em ir para uma cidade do interior e viver lá como matuto. E quando precisar de cidade, aciono minhas imagens de cidade e fico dormindo. O diabo é que ninguém se esconde em cidade do interior. No interior você aparece mais e há muitos olhos nas cidades pequenas. As cidades pequenas devem sofrer de visão exorbitada.
        As pessoas acompanham a vida das outras pessoas, tudo se vê, tudo se confere. Não poderia viver numa cidade que tem mais olhos que habitantes. Alto Mandubinha, população: cinco mil habitantes, número de olhos: vinte mil. A impressão que tenho nas cidades do interior é que até os cachorros e os bois me olham com curiosidade. Um cachorro de rua de cidade grande não dá bola para ninguém. Mas um cachorro de cidade pequena tem mais olhos do que os dois olhos de cachorro. Uma vaca de cidade pequena tem mais olhos que os dois olhos olhando um para um lado e outro para o outro. Todo mundo gostaria de ter olhos que olham um para um lado e um para outro. Todo mundo gostaria de ter mais olhos. De substituir perna quebrada, de trocar de nariz, de ter outra boca e coisas desse tipo. É a mentalidade de videogame que existe no homem mesmo antes de existir videogame.





(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

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