terça-feira, 7 de novembro de 2017

A ideologia do personagem brasileiro






Este é o início da introdução ao livro A ideologia do personagem brasileiro (Editora da Universidade de Brasília, 2007):
Ronaldo Costa Fernandes


Este livro trata do personagem brasileiro, cronologicamente situado entre o romantismo e o modernismo. Não pretendi abordá-lo a partir de traço específico: o malandro ou o pícaro; o negro ou o sertanejo. Eles foram escolhidos com base na representatividade da obra antes mesmo do que na sua expressão específica (o adultério ou a posição da mulher em Machado de Assis; o personagem criança em Raul Pompéia; a mulher no imaginário romântico em Alencar; o malandro Macunaíma, herdeiro de Leonardo Pataca; o pitoresco do personagem matuto em Monteiro Lobato). Acreditei que a partir desta representatividade da obra, do corpo em que se insere o personagem, poderia analisar individualmente cada um deles e, depois, tentar ilação que buscasse semelhanças e dessemelhanças, fio condutor que pudesse revelar a alma ou o fenômeno do personagem em certo conjunto de obras exemplares da nossa literatura.
Pretendi mostrar que nos personagens subjaz um estrato ideológico muitas vezes não percebido pelo seu autor empírico. Ainda mais naquelas obras que a crítica ou o público abonou, provocando certa aderência de sua proposta artística ao esperado pelo receptor dessas histórias. Afora as qualidades estéticas, a adequação entre forma renovadora e receptividade crítica, houve também uma sedução por parte do público e da crítica justamente porque aqueles personagens atendiam a determinada carência antropológica (construções míticas do inconsciente político coletivo).
Os personagens, de forma especial estes que representam momentos culminantes e excepcionais da prosa brasileira, estão comprometidos com a nação. A nação literária e a nação política – a literária porque era uma forma de atualizar-se, ser vanguarda; e a política, porque escrever no Terceiro Mundo é diferente de escrever na Europa. Aqui há sempre uma consciência culpada do autor empírico e permanece latente a dialética, mesmo em textos em que a trama é um fiapo e a forma é expressionista, do compromisso do escritor com a transformação social. No Brasil, mesmo nos textos em que a tensão social não aparece, está latente o conflito entre expressar-se em formas estéticas sofisticadas e a realidade circundante que oprime. Em nenhum dos nossos personagens estudados encontramos um vazio social. Por isso também nos sentimos à vontade para afirmar que, ao lado de sua construção estética, os personagens igualmente estão respondendo a outras questões extratextuais. Nessa tensão entre o modelo importado e a produção de novas formas ou caminhos brasileiros, cabe ao personagem um papel preponderante: o de significar pelo ato (ação) e pela consciência (psicologia) a resposta brasileira.
Em duas grandes épocas, pelo menos, os signos de um nacionalismo literário criaram não só temáticas nacionalistas como propostas de heróis brasileiros: Iracema, no romantismo; Macunaíma, no modernismo. Dois momentos de afirmação político-cultural; o romantismo como expressão política em amplo sentido, o Modernismo reduzindo a carga semântica da política para transformar-se numa estratégia cultural de reafirmações de valores e estética nacionais. Macunaíma seria uma expressão do povo brasileiro, distinto, por exemplo, dos pícaros espanhóis, discordante em linhagem dos aventureiros populares de todos os tempos? Não há dúvida que há forte condicionante brasileiro em Macunaíma. Seria o suficiente para caracterizar o que Mário de Andrade mesmo, em relação a seu personagem, chamou de “entidade coletiva do povo brasileiro”?
Além disso, perguntei-me se não havia contribuição da alta cultura livresca para a formação da nação. Sabemos que o inverso ocorre: as manifestações populares conformam diversas expressões escritas e contribuíram em vários momentos da nossa literatura para dicotomizarem com a cultura erudita. Desta forma, elementos da cultura popular (folclore, mitos indígenas, falares regionais, etc.) foram apropriados pela literatura brasileira. E quanto ao fenômeno inverso? A literatura, num país com alto índice de analfabetismo (basta lembrar que, à época do Machado de Assis maduro, apenas 16 ou 17 por cento da população eram alfabetizados), não poderia moldar a nação na medida em que seu alcance é mínimo. Mas a literatura, embora com alcance reduzido, não teria possibilidade de, num movimento retroalimentador, influir sobre a elite pensante do país e, desta maneira, influir na conformação da nacionalidade?
Sempre em momentos de tensão política (ratificar o Estado brasileiro, como no romantismo) ou de transformação social (caso do modernismo que desejava “atualizar” o Brasil), houve de forma mais explícita a tentativa de resumir em alguns personagens uma característica nacionalista que, na maioria das vezes, era confundida com a necessidade (real ou imaginária) de produzir modelos míticos por intermédio de seus personagens. Este impulso pode ter sido evidenciado de maneira clara ou veladamente, fruto do desejo coletivo não formulado, mas esboçado aqui e ali em artigos críticos, em manifestos, em declarações de escritores. No romantismo, vemos mais claramente esse impulso, e aí estão, entre outros, os textos de José de Alencar e os de Gonçalves de Magalhães.
Observei entre os dois movimentos nacionalistas – romantismo e modernismo – como os escritores brasileiros do realismo não precisavam afirmar uma nova poética tão comprometida com o nacionalismo. O problema agora era produzir nacionalmente – e não nacionalisticamente – um personagem que fosse local e universal ao mesmo tempo. A leitura de Capitu como uma Madame Bovary deslocada de Rouen para o Rio de Janeiro não é a leitura ideal. Talvez seria perguntar-se se aquele personagem machadiano podia ao mesmo tempo expressar uma idiossincrasia brasileira. Ou, ainda, se o personagem podia preencher um vazio do leitor brasileiro, que não fosse visto como cópia, mas ao mesmo tempo pudesse ser inserido na produção internacional que a nova moda propunha e os novos ventos vindos de França e Portugal (via Eça de Queiroz) traziam. Estaria o personagem de Machado em sintonia com o espírito do tempo brasileiro? E o que expressava esse espírito do tempo brasileiro? Estudei no personagem Capitu, de Dom Casmurro, a expressão do tempo como fenômeno social, os conceitos de assimetria, jogo da máscara, insurreição do dependente, situando Machado como expressiva testemunha do Segundo Império.
Fruto de um modelo geral e ocidental, a prosa brasileira lutou para gestar em sua épica de construção de uma literatura nacional várias facetas do corpus brasiliensis. Ao personagem foi dada a responsabilidade de representar não apenas por aspectos exteriores essa brasilidade. A brasilidade do personagem seria vista não somente no uso da linguagem brasileira, no morar, na comida, mas também nos elementos de psicologia popular que o comporiam junto com seu modo de ser, de sentir e de pensar.
Com base em estudo de textos de cunho nacionalista como Iracema, de José de Alencar, Macunaíma, de Mário de Andrade, Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, e de outros que trazem em si uma contradição entre nacionalidade e modelo europeu, como O Ateneu, de Raul Pompéia, permiti-me algumas considerações sobre o significado de um personagem que simboliza a pátria, é a alegoria de uma intenção e gesto brasileiros, mas condensa também alguns procedimentos de atuação do herói e revela mecanismos de funcionamento interno que nos permitem debruçar-mo-nos sobre a problemática do fenômeno que é o personagem em si.

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