quarta-feira, 20 de julho de 2016

Aluguel, poema RCF





O que em mim mora e que me deixa imóvel
é este poema que se inquilina
e, de favor, ameaça, mas não sai.
Não há bisturi ou nada que o alcance.
Embora possa soltar-se a qualquer momento
expelido humor que de nós se expulsa,
ainda me faz crer que por mim é criado
quando, poema invasivo, sou dele escravo.
Quer também a mente junto tomar,
já que o corpo me tem subjugado,
corpo metástase de seu mal-estar.
Pensa por mim o que nunca pensei.
Por fim é dos meus nervos locatário,
poema tumescente entre as minhas vértebras.
Verso espesso onde me alongo,
reverso escasso que só me dá cansaço.
Este poema transverso
incha e dói à mente sutil
sem mão que o toque
sem cirurgia que o ameace.
Assim ando torto e doente
de tal poema incandescente
que me habita quando não o expulso
que não tem teto
quando quero retê-lo
em cada verso, canto ou porão.





(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

imagem retirada da internet: fugindo da crítica, pere borrell

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário