segunda-feira, 4 de julho de 2016

Macunaíma, cap. de A ideologia do personagem brasileiro



(trecho do livro A ideologia do personagem brasileiro, Ed. UnB, 2007, 6° capítulo)

         Mário de Andrade escreveu Macunaíma em apenas seis dias na chácara Pio Lourenço, na cidade de Araraquara, interior de São Paulo. Escreveu de forma divertida, brincalhona e, aparentemente, despretensiosa. Mais tarde, ao elaborar o prefácio do livro é que Mário tentará organizar uma poética do romance. Mário recolherá do livro de Koch-Grünberg, Vom Roraima zum Orinoco,  alguns mitos amazônicos, comuns aos povos fronteiriços da Venezuela e do Brasil. O mito de Macunaíma está bem presente para explicar as formações rochosas do sul da Venezuela: os tepuyes em Canaima, Gran Sabana. Segundo as narrativas dos povos indígenas do lado da Venezuela, o herói teria se machucado e aquele tipo de erosão fantástica nas rochas formando enorme cânion seria o sangue derramado de Macunaima ( sem acentuação na prosódia da palavra ). Mário de Andrade formula, no prefácio a Macunaíma, de março de 1928, algumas considerações que descartariam a possibilidade de interpretar o herói sem nenhum caráter como representativo de uma coletividade.

  É certo que não tive a intenção de sintetizar o brasileiro em Macunaíma nem o estrangeiro no gigante Piaimã. Apesar de todas as referências figuradas que a gente possa perceber entre Macunaíma e o homem estrangeiro, tem duas omissões voluntárias que tiram por completo o conceito simbólico dos dois. A simbologia é episódica, aparece por intermitência quando calha pra tirar efeito cômico e não tem antítese. [...] Me repugnaria bem que se enxergasse em Macunaíma a intenção minha dele ser o herói nacional.

 Dois anos antes, no esboço do prefácio, datado de dezembro de 1926, ele acusara: “O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros”  ( grifo nosso ). Consciente ou inconscientemente, Mário preparara uma formulação do personagem como emblemático de determinado comportamento sociopsicológico do homo brasilis. Essa afirmação é mais condizente com a proposta estética do Modernismo, movimento altamente nacionalista, de crítica e ironia à realidade e ao ideário brasileiros. Como Oswald de Andrade observou sobre a Antropofagia, manifesto dos vanguardistas brasileiros dos anos 20: “Porque a descida antropofágica não é uma revolução literária. Nem social. Nem política. Nem religiosa. Ela é tudo isso ao mesmo tempo. Dá ao homem o sentido verdadeiro da vida, cujo segredo está no que os sábios ignoram na transformação do tabu em totem”.

Lévi-Strauss
 Para Lévi-Strauss o mito é uma narrativa que se dá por meio da língua.  Ele é parte integrante da língua, “é pela palavra que ele se nos dá a conhecer, ele provém do discurso”, diz Lévi-Strauss.  Ao mesmo tempo, o mito descola-se da lingüística ao não proporcionar que se estudem seus elementos de forma isolada, já que eles se mantêm combinados entre si. O mito é parte da linguagem, mas ele manifesta outros sentidos além da expressão da língua. “Essas propriedades”, ressalta Lévi-Strauss, “só podem ser pesquisadas acima do nível habitual da expressão lingüística; dito de outro modo, elas são de natureza mais complexa do que as que se encontram numa expressão lingüística de qualquer tipo” . O antropólogo acentuará o caráter repetitivo, único, reproduzível dos mitos em todas as culturas de forma igual, o que eliminaria a vocação de discurso do mito e reduziria suas potencialidades lingüísticas. 
  A poesia é uma forma de linguagem sumamente difícil de ser traduzida para uma linguagem estrangeira, e qualquer tradução acarreta múltiplas deformações. Ao contrário, o valor do mito como mito persiste, a despeito da pior tradução. Qualquer que seja nossa ignorância da língua e da cultura da população onde foi colhido, um mito é percebido como mito por qualquer leitor, no mundo inteiro. A substância do mito não se encontra nem no estilo nem no modo de narração, nem na sintaxe, mas na história que é relatada. O mito é linguagem; mas uma linguagem que tem lugar em um nível muito elevado, e onde o sentido chega, se é lícito dizer, a decolar do fundamento lingüístico sobre o qual começou rolando.
 Outro dado que nos interessa na formulação teórica de Lévi-Strauss é a caracterização do estudo dos mitos por meio dos feixes de relações, a propriedade significativa de os vários elementos constitutivos do mito se relacionarem e significarem. Em Macunaíma, Mário de Andrade, ao recuperar vários mitos indígenas e costurá-los, criará outro novo feixe de relações completamente distinto dos elementos primeiros do mito. Mário, ao reuni-los sob novo código, dará outra leitura e outra significação mítica. Os mitos iniciais e primitivos entrarão numa nova órbita, literária e culta, criando um novo discurso, uma nova expectativa, e, dentro do feixe de relações, significarão outro mito. O mito de Macunaíma, inicial, primitivo, tribal, indígena, agora semantizará uma narrativa que se enquadra num movimento estético, na época da modernidade, num mundo letrado.
 A formulação dos mitos é contínua. Lévi-Strauss aponta que Freud ao escrever sobre o mito de Édipo também estava produzindo uma narrativa mitológica. Lévi-Strauss descarta a possibilidade dos mitos puros ou originais. Repudia a versão autêntica ou primitiva, já que todas elas são versões. A interpretação de Freud era mais uma versão do mito edipiano, logo também mito. Dessa forma, não apenas Mário de Andrade produz uma nova narrativa mitológica daquele mito dito original e primitivo, mas ele também promove outro mito, assim como nós, ao escrever sobre Macunaíma, também estamos produzindo outro mito sobre o mito. Se Mário buscou Macunaíma é porque ele teria uma estrutura simbólica que poderia expressar algo por intermédio daquela história, já que a história do mito diria o que foi dito anteriormente, no mito considerado ainda em estágio primitivo, e teria outra leitura, já que seus feixes de relação foram modificados ao virar literatura escrita e culta – aqui de forma interna e externa. De forma interna, a modificação dar-se-ia quando o mito de Macunaíma passa a ser arrolado a outros mitos na história do livro. De forma externa, quando o livro é publicado e penetra no ambiente cultural da época.


O projeto ideológico (...) continua...
(fim do trecho selecionado)

pgs 142e 143 de A ideologia do personagem brasileiro

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