segunda-feira, 11 de julho de 2016

Um homem é muito pouco 11







O último caso lhe deixou rombo formidável e uma bala encravada entre os pulmões que os médicos não quiseram retirar. Menuhim sempre pensava na bala quando abria as portas. A bala dentro do peito, entre os pulmões, esfriava e dor úmida, arfante, gelada, vinha de dentro dele como presságio ou mau agouro. Quando a bala se fazia sentir, ele recusava o cliente sem dar explicações e as portas se fechavam para quem ele sempre as abriu.

Mateus e Clemente viram a primeira porta se abrir. Os dois entraram, a porta de ferro fechou-se atrás deles e a porta da frente não se moveu.

Não se moveu porque o velho armênio passou mal, não alcançou o botão que abria a segunda porta de ferro. A intenção de Menuhim era destrancar a segunda porta, agora não apenas por confiar na visita, mas porque sabia que estava prestes a sofrer ataque do coração ou outro de igual potência e queria que a porta se descerrasse não para atender o cliente, mas para que fosse salvo pelos visitantes.

Mas antes que alcançasse o botão, o relojoeiro dobrou as pernas, o olho fixo e arregalado na tela da televisão que mostrava os dois, Clemente e Mateus, ali postos entre ferros de porta e ele, Menuhim, à beira da morte. Quanto a Clemente e Mateus os dois não se moviam, olhavam-se, batiam na porta como se a porta fosse porta de se abrir no trinco e não de forma eletrônica. As batidas na porta não chegavam ao ouvido de Menuhim, mesmo que os ouvidos de Menuhim estivessem prontos para ouvir, mesmo que os ouvidos pudessem ouvir o que não se podia ouvir porque os murros na porta de ferro não ultrapassam a mesma porta de ferro.

Os dois, Clemente e Mateus, por sua parte, desconheciam o que acontecia com o velho armênio que estava estirado e desmaiado no chão. Acreditavam que o relojoeiro não queria abrir e os deixava ali naquele purgatório de ferro.

A luz ficava mais amarela, os tons marrons sobressaíam. Nenhum dos dois tinha claustrofobia, embora Clemente fosse dado a imaginar a cama do camarote como ataúde sempre que ali deitava e o sono não vinha. Os murros de Clemente e Mateus ressoavam apenas dentro da pequena cela. Não gritavam, os gritos doíam-lhe nos ouvidos.

     Menuhim perdia o fôlego, também ia ficando sem a vista das coisas, os mostruários, as ferramentas e as joias todas rodando na sua cabeça. Vinha-lhe um ladrão que chegava perto dele e dizia: Vim buscar o roubo final. As peças estão todas aí, leve-as todas, respondia Menuhim. Mas o ladrão que estava diante do joalheiro não era ladrão de joias. O ladrão que estava diante do velho viera buscar outro objeto do armênio que não esperava tão cedo encontrar a tal porta e muito menos ser assaltado por um bandido de outra espécie que não queria coisas materiais, ou melhor, a única matéria que satisfazia o ladrão era a matéria corrompida do corpo de Menuhim.
       O porteiro tentou arrombar a porta principal, a que dava para o corredor, mas logo percebeu que não conseguiria, mesmo com instrumentos de arrombamento. Se o porteiro tivesse conseguido teria ruído por terra toda a segurança de anos. Clemente e Mateus perceberam que havia movimentação no corredor e agora gritavam para quem estava no corredor e não mais para o joalheiro. Que diabo Menuhim havia feito com eles, que brincadeira era aquela de deixá-los prisioneiros. Menuhim era homem sem humor. Eles não acreditavam que aquela prisão entre portas de ferro fosse mera brincadeira do velho armênio. Era essa certeza, a falta de humor, mesmo que fosse humor rude, inexperto, camponês como o espírito de Menuhim que nunca deixou a velha aldeia onde nascera e fora criado antes de vir para o Brasil, mesmo que fosse esse tipo de humor, o velho armênio era incapaz de cometer. Logo o que viviam era o inferno. Do purgatório ao inferno. Clemente olhou para o companheiro que havia mostrado a vida inteira coragem inteiriça e agora só via um sujeito vítima do próprio horror.


(Um homem é muio pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário