domingo, 17 de julho de 2016

Um homem é muito pouco 12


 
 
 
 
 
Dias depois, Mateus se arrependeu de não ter ido ao enterro judeu de Menuhim no Caju, mas não conseguia se levantar da cama. Clemente não foi visitar o amigo, não desejava se encontrar com o passado. A gente tem que viver pelos cantos e andar se esgueirando pelas ruas porque é muito difícil você viver sem encontrar o passado. O passado está em todo canto e a toda hora lembra você que sim ele é passado e que você tem que conviver com ele. Ou então o passado prega peça e quando você vê está diante do passado, você, que tanto evitou o passado. Mas quando se pode prever que a gente vai encontrar o passado, como é o caso, por exemplo, de Clemente que, caso vá visitar o amigo Mateus, vai dar de cara com o passado que é a irmã dele Matilde, então o melhor é evitar encontrar o passado.

Quem foi ao enterro judeu de Menuhim ficou espantado com a mistura de gente que foi velar o homem. Estavam presentes gente da comunidade israelita, gente da bandidagem que também tem seu afeto e sua maneira de demonstrar pêsames, gente simples que não se sabia seu Menuhim, armênio e joalheiro, ajudava e a parentada toda que havia crescido desordenada e múltipla em vários estados do Brasil.

A loja do seu Menuhim poderia ter sido investigada pela polícia. Ali existia toda espécie de transgressão e poderia fornecer o nome de muita gente do crime que era freguês do velho armênio. Existia um livro ensebado de capa escura onde Menuhim escrevia o nome de quem lhe vendera a joia, a quantia paga e a possível origem. Mas ninguém deu nada pelo livro de capa escura de Menuhim. A mulher dele recolheu as peças, vendeu-as, passou o ponto e mandou dar faxina vigorosa e definitiva no negócio de joalheria do velho Menuhim e o caderno de capa escura acabou no lixo junto com outras porcarias que não interessavam à polícia.

Menuhim era um corpo como outro corpo qualquer. Mas a mente de Menuhim era mente privilegiada que a vida torceu para o crime, enquanto se fosse empregada a inteligência para o fabrico de joias, ele seria o designer mais famoso e admirado. Mas Menuhim não queria saber da fama. Gostava de saber que estava envolvido em algo perigoso, que tirava a vida das pessoas como pequeno deus perverso.

Agora estava ali, não entre duas portas, mas entre quatro paredes de madeira, só e abandonado, a mente criminosa desligada como se desliga a luz ao acabar o expediente. Outra perversão de Menuhim era gostar das mocinhas pobres, mulatinhas, de subúrbio, malcheirosas, sujas, mal alimentadas que ele, vira e mexe, e tome vira e mexe, engravidava e nascia um sarará a quem ele dava nome judeu e pensão por mês, embora não perfilhasse e negasse a paternidade a quem visse o menino na loja, um Menuhim condensado e mais escuro, esperto como expatriado, ladino como o velho armênio.

A mulher de Menuhim de vez em quando recebia a visita do filho e da mãe do menino a pedir para que a velha armênia mulher de Menuhim continuasse a pagar comida, roupa e escola do menino e a velha armênia mulher de Menuhim já nem brigava mais, nem saía pela rua a gritar palavrões em português, em iídiche e em armênio, expulsando as amantes do marido que ele deixou entre os bens restantes e testamentários. Agora pegava o telefone e ligava para o advogado e punha a menina escura e já com outros filhos de outros homens na linha e o advogado falava alguma coisa tão convincente ou ameaçadora que elas desligavam o telefone, davam adeus e iam embora carregando o menino pendurado pelo braço e aos safanões como se o garoto meio judeu armênio, meio brasileiro de Franco da Rocha ou do Jacarezinho fosse culpado pela penúria da mãe.
 
 
(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)
 
 
 

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