terça-feira, 12 de julho de 2016

Um homem é muito pouco 25





         Há outro tipo de frequentador do bar do Vicentino. O sujeito que se aposentou da vida. O sujeito que se aposentou da vida não é necessariamente um sujeito velho, apenas deixou que o corpo dele desse expediente. O sujeito aposentado da vida não tem fundo de garantia, nem pensão. Geralmente vive à custa de mulher balzaquiana encalhada e com furor uterino, muitas vezes casada, ou vive de pequenos bicos e trambiques. Esse cara propriamente não tem a alma vadia e muito menos a alma dele chora pelos cantos. É um sujeito aleijado. Não no corpo, mas na alma. A alma de um sujeito que se aposentou aos vinte e três anos é alma que tem a perna da alma quebrada, os pés da alma quebrados e as mãos da alma inertes e perdidas. O corpo mesmo só serve para lhe dar prazer. O sol da praia, a cama das mulheres, um cigarrinho do que quer que seja. Se o corpo se esquece de ficar sadio e adoece, ele não quer mais o corpo. O corpo só lhe dá prejuízo. O corpo come, o corpo precisa de cama para dormir, o corpo tem que pagar roupa. É certo que ele gosta de dar roupa ao corpo, mas não gosta de gastar grana para o corpo deixar de ser corpo que é quando o corpo dorme. O sujeito que se aposentou da vida é vaidoso, gosta do corpo bronzeado que ele passeia pelas areias da praia. Drogado, gostaria de jogar o corpo fora. Não o sente. O corpo só dá gasto. Até que um dia o corpo também estará gasto. O corpo e suas despesas. Mas sabe que a alma não se deita com as mulheres maduras e gordas que fodem com ele e lhe dão grana. Sabe que a alma não lhe dá o prazer da droga. Sabe que a alma não toma sol.

            Outro tipo que aparece no bar do Vicentino é o sujeito que quer fazer câmbio de Dolores, como chamo o dólar. Como na região tem alguns hotéis e sempre estão cheios de gringos, Vicentino descobriu que podia ganhar a vida como banqueiro. Banqueiro de dolores. O gringo chega, pergunta se há cambiô e Vicentino já responde com a cotação do dia, vinte para a venda, quinze para a compra. Todo bar é um câmbio negro. A energia que emana de um bar é uma energia escura, cheia de ácido úrico, bêbada. Há algo bastante escuro no cambiô de dolores.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

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