quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Demônios de Bosch, RCF








Há morte e morbidez no amor:
insiste em fixar o momento.
Desconhece o tempo
com seu casaco de rumores.
Desconhece que só o tempo
e a morte – a morte com sua nudez,
porque a verdadeira roupa
é a veste dos vermes – são eternos.

Meu amor vegetal cresce feito unha,
independente, suor exorbitado.
Faz dos meus olhos duas órbitas
que giram ao redor do ser amado.

Quando menos nos damos conta,
o amor fez soma,
no quadrado do quarto,
diminuímos de tanto fluido,
o suor e o sêmen:
duas equações líquidas.

Amor é múltiplo de dois.

Sou todo argila.
Quando meu amor
me soprará a divina existência
de outra boca em minha boca?
Todo homem tem seu deserto.
Amar talvez seja compartilhar desertos.
Passos na areia quente
e fugidos da tela do sonho,
presos na garrafa
– lá, de onde não podem escapar –
tampada pelo cotidiano,
os pequenos demônios de Bosch.






(do livo A máquina das mãos, Ed. 7Letras, Rio, 2009)




imagem retirada da internet: bosch

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