segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Dom Sebastião, poema RCF



Marrocos: atrás de Alcácer-Quibir
entre Salé e Tanger, estava no deserto
o estigma da minha raça e lá perdido
e mouro e berbere, a lembrança funesta
e mágica de que aqui pertenço
como o seixo a sua montanha, o gado a seu pasto,
mas não a tâmara, que não é fruto da tamareira,
mas das bocas doces e árabes das moças.
Fui atrás de uma batalha perdida e da ilha
encantada que alberga o rei morto como
as árvores abrem seus ventres para servir de cova
e seus braços longos para suportar ninhos,
e lá estive, no deserto mais dissoluto e solar,
na solidão do vento quente que sopra o corpo
e a lembrança perdida dos tempos e nada
encontrei, pois nada havia de encontrar
para unir uma ilha encantada a uma
batalha que já havia sido perdida antes
de começar. E percebi – tudo o que herdei
da visita – que a ilha encantada
me acompanha, a serpente em volta de mim,
e que carrego a infância pelas ruas
como um mendigo arrasta sua medina de erros.


(Memória dos Porcos, 2012)


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