quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Um homem é muito pouco - 39












            Mudei-me para Santa Tereza. Moro num quarto de um apartamento de três quartos. É uma república de estudantes. O único não estudante ali sou eu. A minha vizinha de quarto é Marilyn Monroe. É claro que a minha vizinha de quarto não é a Marilyn Monroe. Fui eu quem inventou o apelido para Sônia. Ela é branca e pinta o cabelo, tem o rosto redondo e embora não se pareça com Marilyn Monroe gosta de imitar os gestos de celuloide de Marilyn e fala com a voz radiofônica e em preto e branco de Marilyn Monroe. Não sei se Santa Tereza é o melhor lugar para me esconder. Creio que não. Há de tudo num bairro como Santa Tereza.
De noite ouço o barulho da cidade que não dorme. Alice reclamava do barulho da Prado Júnior. Agora vejo que não é o barulho da Prado Júnior, mas o barulho da cidade. A cidade é imensa caldeira. Uma caldeira não pode esfriar porque racha. O Rio não pode esfriar porque racha. Uma cidade rachada é uma cidade impraticável de morar. Por isso o estômago do bicho cidade trabalha de madrugada e do alto do morro de Santa Tereza posso ouvir as entranhas desfeitas do bicho cidade.




(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)



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