quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Aos pichadores de Drummond







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Por que me picham?
Que lhes fiz?
Por acaso minha poesia ofende os homens,
porque cantei-lhes a solidão, a solidariedade,
o amor maduro, a cidade e sua flor,
o labirinto do áporo, os inocentes do Leblon?
Não combati em Stalingrado,
eu, fazendeiro do ar,
mas lutei contra a subitaneidade do efêmero.
Por acaso a poesia ofendi?

Que mal faço a quem passa
sentado aqui na tarde bronze?
Continuo ocupando espaço,
não esse, pequeno mundo,
mas outro, em que se usa
os óculos da imanência,
as pernas cruzadas do indizível,
o passeio público do calor órfico.


Habitei mistérios de minério e de fotografias que doem,
trabalhei em obra modernista,
quem sabe não me querem na praia,
mas entre os pilotis do Palácio da Cultura?
Não, não pichem a poesia,
ela não floresce em mansões,
não pertencemos ao mundo do espetáculo.
Não pichem a vida,
o pensamento, o imponderável, a inação,
não pichem o nada e o ser,
não pichem a essência,
não pichem a volúpia do belo.


 (inédito)

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