segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez


Gabriel García Márquez

Ronaldo Costa Fernandes


(do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís: Academia Maranhense de Letras, 2016)


Torna-se difícil falar sobre Cem anos de solidão, depois que a bibliografia sobre a obra cresceu vertiginosa e quilometricamente. Nesta edição mesmo de Cem anos de Solidão, temos excelentes estudos. Desde os depoimentos de Carlos Fuentes e Álvaro Mutis até as análises de Vargas Llosa, que vê o livro de forma totalizante, de García de la Concha que estuda o tempo e a repetição, de Claudio Guillén que trata do narrador do conto, do mito e da História até Pedro Luis Barcia, que situa o livro confrontando com as experiências formais da década de 60 e de Gonzalo Celorio que define o realismo mágico frente ao real maravilhoso.
O pacto inicial de García Márquez em Cem anos de solidão é com a memória ancestral da humanidade. Ali estão postos os mecanismos fundamentais de funcionamento de um modelo arquetípico de imaginação transbordada que se associou aos elementos por ele utilizados em sua narrativa. O ponto que queremos abordar é muito simples: lentamente Cem anos de solidão passa do imaginário universal para o universo imaginário pessoal de García Márquez. Esta transmutação se dá aos poucos e suavemente. O imaginário pessoal – ou se quisermos latino-americano – de García Márquez abre e fecha o primeiro capítulo. O gelo é o simbolismo maior dessa transformação mágica da realidade ou ainda dessa magia de transformar a realidade em coisa desbordante de imaginação.
“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.” O gelo ou o acesso ao gelo num clima majoritariamente tropical como o nosso é de um fascínio próprio de climas quentes. Está certo que a simbologia do gelo, de tornar concreto o que é líquido, é uma forma também universal. Mas é, contudo, mais própria ao sonho e a um mundo inalcançável para quem vive nos trópicos do que para aquele que tem o gelo como seu habitat ou tem acesso ao gelo facilmente, durante uma das estações do ano, como no hemisfério norte. Alguns dirão que o gelo que o Coronel Aureliano Buendía lembrou-se quando estava diante do pelotão de fuzilamento é o mesmo gelo que encerra o primeiro capítulo quando José Aureliano Buendía leva seus filhos a uma feira de variedades montada pelos ciganos. O gelo inicial é um gelo terminal: o coronel Aureliano Buendía irá morrer. O gelo do final do primeiro capítulo é um gelo iniciático. É o primeiro contato de Aureliano Buendía com a mágica realidade de Macondo, cidade que até aquele momento tinha poucas casas, trezentos habitantes e o cemitério ainda não fora inaugurado.
Os elementos iniciais e universais são os ciganos, os judeus, os alquimistas e as enumerações exóticas. “Sobrevivió a la pelagra en Pérsia, al escorbuto en el archipiélago de Malasia, a la lepra en Alejandría, al beriberi en el Japón, a la peste bubónica en Madagascar, al terremoto de Sicilia y a un naufragio multitudinario en el estrecho de Magallanes. Aquel ser prodigioso que decía poseer las claves de Nostradamus, era un hombre lúgubre, envuelto en un aura triste, con una mirada asiática que parecía conocer el otro lado de las cosas.” (14) Esses componentes fazem parte do repertório da América Latina, mas também pertencem ao patrimônio das coisas exóticas de todo mundo. A cabala dos judeus, a alquimia medieval e suas transformações múltiplas, o deambular dos ciganos que trariam um conhecimento estranho e fascinante, de pouca utilidade imediata, mas que trabalhariam com elementos transformadores da mentalidade humana ou a transformação dos elementos humanos como o homem voar, uma mulher sobreviver a várias mortes, o ferro se transmutar em ouro, o desaparecimento do corpo. E, por fim, José Arcadio Buendía alimentava talvez o mais exótico e mágico passatempo e crença da humanidade: a ciência. Não a ciência ordinária e mecanicista, mas a ciência salvadora e messiânica, a ciência como panacéia, a ciência como religião.

Capa das primeiras edições
O maravilhoso sempre esteve presente na literatura, seja nos poemas homéricos, seja na literatura milenar dos árabes como As mil e uma noites. Se a prosa é uma continuação de elementos míticos que eram narrados e registrados de geração em geração, o início da prosa é mágico. Borges chegou a dizer que a literatura realista foi uma invenção do século dezenove, porque a literatura sempre havia sido fantástica. Desse ponto de vista, o que García Márquez empreende é uma grande viagem ao início da literatura em prosa. O mágico e o maravilhoso estão nos mitos, nas narrativas milenares e na literatura popular de todos os tempos. A imaginação desbordante dos povos sempre esteve mais perto do deslumbramento de mundos desconhecidos e procedimentos inusitados do que propriamente a descrição dos hábitos e costumes de determinada comunidade. García Márquez encanta por se acercar a este mundo primitivo – tão primitivo como a comunidade mágica, o povoado que vivia numa terra pantanosa chamada Macondo.
Alguns elementos transformam Macondo num lugar singular e os elementos universais do imaginário da cidade passam a ser mais locais e latino-americanos: aí estão Rebecca a comer terra, a peste da insônia que assola o lugarejo, a implantação da companhia bananeira, as borboletas amarelas sobre a cabeça de Mauricio Babilônia e muitos outros traços de um imaginário próprio. Ao traçar de maneira mítica a origem e o desenvolvimento do lugarejo que toma ares de cidade, Macondo quanto mais cresce mais se individualiza. É de se lembrar que García Márquez não é o único a elaborar comunidades fantásticas e nem mesmo deixar de inserir elementos mágicos. Um pouco antes, a geração de Alejo Carpentier havia investido suas energias narrativas no real maravilhoso. Por sua vez, para não fazer um longo inventário da literatura mágica, o século dezenove conheceu o fantástico de Hoffman, de "O Horla", conto de Maupassant, “O pé de múmia”, de Teophile de Gauthier, os contos fantásticos de Edgar Alan Poe. Nós mesmos no Brasil temos uma narrativa fantástica pouco conhecida do grande público, embora seu autor seja muito lido por seus outros livros. Falo de A luneta mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, mais conhecido por sua literatura adocicada e romântica de A moreninha.
García Márquez é um construtor de cidades imaginárias como Ítalo Calvino e Faulkner. Nas cidades imaginárias, contudo, se observa um fenômeno muito particular: por mais imaginárias que sejam elas geralmente obedecem a um ordenamento urbanístico e jurídico das cidades reais. Ángel Rama já havia observado que as cidades imaginárias seguem o mesmo procedimento das cidades comuns porque fazem parte do repertório da literatura e, do leitor, só se exige que ele mantenha a suspensão da descrença que é mantida, por sua vez, pela verossimilhança interna do texto. O nascimento, vida e morte de Macondo seguem o mesmo procedimento das cidades ditas reais. Mesmo que a geografia de Macondo seja arbitrária, ao mesmo tempo García Márquez se preocupa em descrever as casas, as ruas, o aparecimento do estado na figura do primeiro corregedor que surge na narrativa.
Amor e guerra são dois temas constantes em Cem anos de solidão. Os dois temas se mesclam e os homens quando não morrem na guerra podem morrer de amor. Ainda no primeiro capítulo, as guerras intestinas da Colômbia ainda não fazem parte do repertório do livro, embora a primeira frase já mostre a atmosfera que dominará o volume. Mais do que as guerras que favorecem o ambiente propício para as imaginações exaltadas, já que os homens perdem a cabeça e a guerra em si é um ato insano, é o amor, desde o primeiro capítulo que catapulta a imaginação dos homens e transformam as mulheres em seres sobre-humanos. Já desde o primeiro capítulo se apontam essas duas vertentes que pertencem não somente a Cem anos de solidão, mas também a outras narrativas curtas e longas de García Márquez.

E desde o primeiro capítulo já aparece o que será outro tom de todo o romance: a delicada linha entre vida e morte em que perambula a maioria dos personagens já está estabelecida. Cem anos de solidão também é a história da tentativa de vencer a morte como fez o velho cigano Melquíades que regressa da morte por fastio. Há um clima constante de morte e de fatalidade que persegue os personagens do livro. Em todos os momentos os personagens parecem estar à beira da morte, ou dela retornam, ou nela ingressam precoce e violentamente ou nela, principalmente as mulheres, imergem, cansadas do ócio, tomadas por ressentimentos e dores de amor e, como o próprio narrador indica: “los Buendía se morían sin enfermedad” (320). Não há sossego para os viventes porque a presença constante da morte também aponta para aqueles personagens como Úrsula que parecem ser eternos e sobreviver a todas as desditas e avatares do destino.

Tudo em Cem anos de solidão é hiperbólico. Desde os 17 filhos assassinados de Aureliano Buendía, os 82 ovos de iguana que comeu numa refeição, os 32 levantamentos armados, todos perdidos, as 73 emboscadas a que escapou, o trem de 200 vagões que levava os 3 000 mortos da rebelião contra a companhia bananeira. O superlativo é uma forma de narrativa fantástica do realismo mágico. García Márquez é por excelência um escritor superlativo, em seu grau mais absoluto. E seu livro Cem anos de Solidão terá a companhia dos seus leitores não apenas por mais outro século, o mais certo é que teremos Mil años de lectura do seu eterno Cien años de la soledad. Que viva García Márquez para sempre na mente e coração dos seus leitores.

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