sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Em torno a uma imagem de Derrida pouco antes de sua morte, poema RCF






Recuso a voz verde de Derrida,
os olhos de estanho,
a pele ausente que pode rasgar-se,
plumagem de pássaro último.
O câncer está prestes a mudar sua pele
– esta, a plumagem de gesso envelhecido,
a pele de terno com que se veste o morto.
Cada vez que respira,
a marreta do matadouro miúdo
ameaça o cérebro filósofo.
Carrega consigo o pequeno cadáver
de fígado, rim ou pulmão
que morreu antes dele.
Logo sairá do cinema da morte.
Entramos numa grande sessão de cinema
que dura vinte, cinqüenta ou setenta
anos e, de súbito, em vez de as luzes
acenderem, tudo se apaga.


(do livro A máquina das mãos, 2009)
 
(imagem: chagall)

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