quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Eterno passageiro por Antonio Carlos Secchin


A poesia de Ronaldo Costa Fernandes se tece num mundo de asperezas e sob o signo de contínuos descentramentos. No (renegado) livro-folheto de estreia Urbe (1975), já se desenhava uma tensa e hostil relação do poeta frente ao espaço da metrópole, vivenciado como fraude e clausura. Nas coletâneas seguintes – Estrangeiro (1997), Terratreme (1998) e Andarilho (2000) – desdobra-se a imagem de um poeta em trânsito, através de sucessivas viagens cujos pontos terminais, em vez de representarem a conquista de um paraíso apaziguador, impedem a consolidação de qualquer esperança, ao deixarem patente a inutilidade da travessia (“Nenhuma França me fará feliz”). Este Eterno passageiro, que se insere na trilha aberta por seus predecessores, desde o título se apresenta com refinada ambigüidade: cada um dos dois termos pode ser lido como substantivo ou adjetivo do outro, e ambos ainda podem ser considerados adjetivos simultâneos de algum elíptico substantivo.
O leitor há de ter percebido o lapso de 22 anos decorrido entre a estreia e a retomada da criação poética de Ronaldo: nesse longo intervalo, ele construiu sólida carreira como romancista, tendo sido contemplado, inclusive, com o prestigioso prêmio Casa de Las Américas. A poesia, porém, era uma espécie de hóspede clandestina de sua prosa, aguardando o momento de abrir passagem e retomar um lugar que era seu na origem. As recentes publicações no gênero confirmam que, finalmente, a escrita de Ronaldo optou por dividir-se (ou multiplicar-se) entre a ficção e o lirismo, abrindo-se ainda à arguta reflexão ensaística de O narrador do romance (1996).
Se a inflexão explicitamente engajada foi a tônica de Terratreme, os demais títulos privilegiam uma atitude que filtra o social pelo olhar impactado do sujeito lírico que o sofre. O mundo, o outro, lá estão, não como realidade alheia ou alienada, mas transformados em dádivas ou dores agregadas ao corpo do poeta. Eterno passageiro é, em Ronaldo, mais uma etapa consequente desse processo de não estetizar a brutalidade da matéria-prima da existência. Peles e corações ressequidos, trastes, objetos banais, ossos, vísceras, besouros: tudo cabe numa poesia que devolve e revolve, com a força de sua voluntária crueza, a impureza da aventura de estar vivo. A “combustão de existir”, referida no belo texto “Imaginações violadas”, é o processo que sustenta, não se sabe ao certo com que propósito, as máquinas humanas, navegantes náufragas à deriva da vida.
Os cinqüenta e sete poemas do livro operam num registro lingüístico bastante despojado, mas não necessariamente fiel à ortodoxia da linhagem construtivista. Eterno passageiro embarca ao largo de algumas das tendências hegemônicas de nosso lirismo contemporâneo. Nesse sentido, pode-se dizer que o “andarilho” Ronaldo Costa Fernandes, “estrangeiro” no banquete de confrarias poéticas ostensivamente (auto-)festejadas, percorre caminhos paralelos ou marginais a vários roteiros previamente sinalizados para o aplauso crítico: o exibicionismo erudito, a intertextualidade para poucos, o minimalismo, o virtuosismo conservador e bem-penteado ou – seu oposto, idêntico pelo avesso – o beletrismo da rebeldia, previsivelmente “desconstrutor”. O poeta, conforme registra no texto “Para Nauro Machado”, prefere tratar o “poema como búfalo não domado”. É ler peças como “Outubro”, “Poema contra a cremação”, “Avenida Beira-mar, 1960”,“Deserto” para nos convencermos do acerto dessa opção, que nos brinda com uma poesia de voz e vôo próprios.


imagem retirada da internet: miró

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