quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Fetidez, poema RCF

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a maré cria
a circunstância
          do torvelinho

enquanto os marinheiros
            com suas redes
            vão pescando
o medo que é um peixe
            imponderável
escondido
           no féretro das sombras

estão assustados
           até mesmo a exsudação
lembra a eles
          que estão vivos
                            mas que a fetidez
do corpo sujo
           é um pouco da morte
           que carregamos

é hora de recolher
                          as redes indizíveis
                          antes que se transformem
em mortalhas
e dar rumo ao barco
          à deriva dos serôdios

                               no cais
ninguém nos espera
                               ninguém

nem mesmo
                  as mulheres pagas
putas ou carpideiras

resta-nos o porão
                 onde cabem as cargas
                 do melhor desvario
e os contêineres
que carregam partes
                podres de nós:
o próprio vazio
que tudo preenche



(do livro Andarilho. Rio: 7Letras, 2000)


(imagem retirada da internet: íntura em 3d, ipad.com)


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