quinta-feira, 17 de novembro de 2016

GUERRA E PAZ, Tolstói






por Carlos Tavares


Vinte e cinco anos depois de publicar Guerra e paz (1863-1869), Liev Tolstói reelabora o seu pensamento cristão em O reino de Deus está em vós (1894) e conclui que as igrejas, "como sociedades afirmadoras de sua infalibilidade, são instituições anticristãs". A grande questão do tolstoísmo é conciliar a guerra com a liberdade, a justiça com a igualdade, a condição do mal com a violência, os direitos do homem e a servidão. Ainda na obra posterior ao romance em relevo — um dos ensaios sobre a fé e o cristianismo mais contundentes que o Bruxo de Iásnaia Poliana escreveu —, a indagação inquietadora sobre a Igreja e o seu papel na sociedade, que permeia todo o livro, está sempre em conexão com Guerra e paz, livro em que Tolstói reúne as principais linhas de suas teorias sobre guerra, casamento, religião, humanismo, sociedade e liberdade.



"Como conciliar a doutrina claramente expressa pelo Senhor e contida no coração de cada um de nós — perdão, humildade, amor a todos, amigos e inimigos — com a exigência da guerra e sua violência contra os nossos compatriotas e contra os estrangeiros?" Nessa reflexão, vemos uma evidente demonstração do que estava sendo forjado em Guerra e paz sobre seus conceitos teológicos e humanistas. Sobretudo se nos determo-nos na conversão do príncipe Pierre (provavelmente o personagem central da obra) quando esse resolve entrar na maçonaria e purificar sua alma. Só assim alcançaria a reforma moral estilhaçada aqui e ali, com recaídas e idas e vindas ao reino do bem. Senão, vejamos: "Purificando e corrigindo os nossos membros (da maçonaria), tentamos (...) corrigir toda a espécie humana, oferecendo a ela um exemplo de devoção e virtude (...) e assim tentamos, com todas as nossas forças, combater o mal que reina no mundo".



A sentença é de Smolianínov, o reitor da fraternidade à qual aderiu Pierre para mudar de vida. Nesse aspecto, aliás, o personagem muito se assemelha à figura do Grande Inquisidor, de Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Mas a vida do príncipe ainda daria muitas voltas pelo universo da conversão ao longo de mais de 2,4 mil páginas, em que se revela a face frágil do homem perante as armadilhas da crença e do perdão, do amor e da certeza na reforma moral almejada. Para isso, internamente, nas hostes da ordem dos templários, ele teria de abdicar de muita coisa do mundo humano: teria de ser obediente, de ter bons costumes, amor à humanidade, coragem, generosidade e, o principal, aprender a amar a morte.



A conversão do príncipe Pierre Bezúkhov se dá a partir da página 732 do primeiro volume da bela edição da CosacNaify, em dois volumes, traduzida por Rubens Figueiredo, direto do russo. Mas, logo adiante, na página 781, Pierre volta São Petersburgo, a capital da farra imperial da Rússia, e cai na tentação da vida anterior, fútil e sem propósito maior regada a muita vodca, comida, vinho e mulheres. E reconhece que das sete virtudes pregadas pelo reitor, não possuía pendor pelo menos para três delas: ser um exemplo de vida moral, mudar os hábitos e amar a morte.



Angústia



Nesse sentido, o príncipe se aproxima muito da personalidade angustiada do próprio autor, que na juventude torrou boa parte da fortuna da família com bebidas e mulheres e viveu grande parte de sua trajetória na corda bamba da moral e do cinismo. Ao se dar conta das dificuldades que a nova vida de castidade e amor traria para ele, Pierre se dedica a praticar com ímpeto ao menos dois dos preceitos da entidade secreta: a generosidade e o amor ao próximo. Então parte, como Tolstói fez em vida, para a libertação dos servos de suas terras e a reforma social dos mujiques que preferissem continuar trabalhando para ele, oferecendo a oportunidade às famílias dos camponeses de ter uma vida melhor, com escola para os filhos, igrejas, mais lazer e menos trabalho, o que também não deu certo, porque, sem que soubesse, Pierre era roubado por seus administradores com a conivência dos próprios empregados. Na vida real, Tolstói conseguiu instaurar um sistema mais eficiente em Iásnaia Poliana adquirindo a confiança dos trabalhadores e promovendo uma verdadeira revolução educacional na propriedade herdada de seus pais.



Os titubeios do príncipe em relação à fé e à vida devassa refletem a agonia do próprio Liev, que em vida permaneceu sufocado a maior tempo pelo turbilhão de dúvidas que o massacravam em termos de religião, humanidade, amor, violência, o bem e o mal. É como se o escritor impusesse a seus personagens (não apenas de Guerra e paz) a dádiva da fé, a necessidade de limpeza da alma e a premência de abandonar vícios e vaidades em meio a uma tempestade de dúvidas e de tentações que rivalizam em iguais medidas com os desígnios divinos e a entrega absoluta de um homem novo, livre de culpa, o caminho do impossível.



Três personagens de destaque na obra — Pierre, Andrei e a princesa Mária — simbolizam os desejos humanitários do autor que melhor situou a fragilidade humana como essência espiritual e metafísica da espécie. Mas nem por isso Guerra e paz é uma obra conformista. A todo instante o narrador elabora reflexões sobre a necessidade de o povo se mobilizar em busca da liberdade e afirma — este é o eixo central de seu pensamento — que somente unidos os deserdados do império poderiam vencer o exército de Napoleão e os próprios representantes do poder da Rússia Imperial. No fim das 2.490 páginas do livro, o leitor se depara com uma constatação irrefutável: dois elementos fundamentais superaram as forças de Napoleão: as milícias populares russas, compostas de camponeses, fugitivos e outros civis e o frio intenso de 35º abaixo de zero.



Tolstói, em sua releitura da história, deixa claro que não foram as estratégias dos militares dos generais de Alexandre I ou a covardia de Napoleão (que fugiu para a França quando pressentiu que seu exército perdia o ânimo) após a invasão malsucedida de Moscou que venceram a guerra. Mas sim a força do povo, à qual o narrador faz menção em diversos trechos do primeiro volume pela voz de vários personagens, principalmente as dos príncipes Andrei e Pierre.



A guerra



Tudo isso se passa em uma Rússia (por que não uma Europa?) cindida entre o apoio absoluto a Napoleão, que se autoproclamara imperador, e a independência de seu povo, preconizada pelo czar Alexandre I, que reinou entre 1801 e 1825. Mas o próprio Alexandre recua na incondicionalidade do apoio às forças de Napoleão e vê que é chegada a hora de defender seu território. A Rússia havia perdido em 1805 a batalha de Austerlitz, com baixas consideráveis em seu exército e resolvera, ao lado da Áustria, se aliar à França. No entanto, muita água correria por debaixo das pontes que separavam o país de suas fronteiras, muitos acordos malogrados seriam desfeitos até a grande e sangrenta batalha de Borodinó, em 1812, quando as duas linhas de combate já estavam se digladiando há longos anos; Napoleão de um lado, com mais de 600 mil homens, e a Rússia de outro (com aliados), com 900 mil.



Um dos pilares da destruição do exército de Napoleão — além das forças populares e do clima de inverno, como aconteceu na Segunda Guerra Mundial, em Stalingrado — foi a posição do general Mikhail Illarionóvich Kutúzov, acusado, injustamente, segundo Tolstói, de covardia, e de ter abandonado Moscou ao saque e à pilhagem pelos soldados franceses que, famintos, com poucas armas, sofrendo com o frio, invadiram a capital e queimaram seus palácios, catedrais, ruas e seus casarios, ícones e obras de arte, mataram e estupraram promovendo o maior incêndio da história da guerra em uma cidade que era a base militar e administrativa do império.



Kutúzov, enquanto os franceses se esbaldavam em uma Moscou semidestruída, segurava suas forças às margens dos rios Kaluga e Mosková, a cerca de 100km da cidade, de onde dava para ver as torres da igrejas e dos palácios arderem em chamas. De fato, era meio incompreensível que os combatentes russos ficassem de braços cruzados assistindo o avanço das tropas francesas sobre a cidade-símbolo do Império. Mas a verdade, como explica o autor em diversos capítulos que se alternam com a história e a ficção — e em que promove reflexões histórico-filosóficas sobre as razões da guerra — é que Kutúzov, além de ter ordenado a evacuação de Moscou, antes da invasão, e aguardasse o melhor momento de atacar, estava certo da vitória: "Os franceses vieram sem ser convidados e vão voltar do mesmo jeito".



O desfecho, no inverno de 1812, foi trágico para as forças de Napoleão. O general russo dera ordem de ataque e os franceses não suportaram o frio de 35º graus abaixo de zero, a fome, a falta de ânimo. Dos 610 mil homens que Napoleão levou para invadir a Rússia, voltaram com ele para a França apenas 10 mil. Kutúzov tinha razão, embora os historiadores da época permanecessem criticando sua postura. No fim do banho de sangue, Pierre conclui que "a guerra é o assassinato, os instrumentos da guerra são a espionagem, a traição, o extermínio dos habitantes, a pilhagem de seus bens, a fraude, a mentira, chamadas de astúcias militares" (página 1618 do segundo volume).



O amor



A montagem deste romance desconcertante, profundo, inquietador e monumental é uma das novidades para a época apresentadas por Tolstói, que subverteu as formas corriqueiras de escrever e instituiu a liberdade narrativa do deslocamento de foco narrativo, inserção de hipertextos, de monólogos interiores, de ensaios políticos e filosóficos sobre a guerra, a religião e o amor, além de dar maior autonomia ao narrador em terceira pessoa. Este se confunde muitas vezes com um dos personagens da obra, ao interferir na trama, na primeira pessoa, com reflexões e análises sobre a postura de cada um dos que se acham no centro da narrativa.



Considerando-se esses aspectos linguísticos e semânticos, não há nada mais moderno em produções literárias da época do que Guerra e paz. O próprio Flaubert, contemporâneo de Tolstói, quando leu o livro, disse, atônito, "ora, mas ele filosofa demais". Isso sem deixar de dar a Tolstói o mérito merecido de grande demiurgo da história recente e da ficção. Tolstói compõe o seu painel sobre as guerras napoleônicas — num período que vai de 1805 a 1820 — dispondo os capítulos de forma intercalada, entre aqueles que falam das ações de guerra e aqueles que se detêm na história de cada personagem enredados com paixões fracassadas e casamentos frustrados. Nesse sentido, é onde ele elabora suas ideias sobre a figura feminina, que considera fútil e interesseira, as razões do amor, o ideal socialista, a religião, a fé e a maldade humana.



Basicamente, ele concentra em Natacha (futura mulher de Pierre), a princesa Mária, Andrei e Pierre, seus modelos humanos mais profundos, em que resume suas trajetórias de ascensão e queda em meio ao turbilhão da guerra e das perdas como reflexos das próprias batalhas em campo. Trava-se, no interior das mansões e dos palácios, uma guerra silenciosa e antecipadamente perdida, entre os casais que se confrontam ante a traição, a promessa, o medo do fim do amor, a dúvida, a loucura da rejeição.



Nas histórias pessoais desses personagens estão os embriões de modelos humanos esculpidos pelo gênio russo em muitas de suas obras posteriores, como A morte de Ivan Illítch, A sonata Kreutzer, Khadji-Murát (ver o personagem Thiókin), Padre Sérgio. Ao se encerrar essa viagem de infinitas possibilidades de reflexão sobre a vida, vê-se que a obra em questão permanece mais do que atual, em termos de exegese da essência humana e da visão de guerra que o homem contemporâneo ainda exibe em sua trajetória de vida.




De Liev Tolstói. Tradução de Rubens Figueiredo. Edição especial em dois volumes. CosacNaify, 2.536 páginas. R$ 198.


(imagens retiradas da internet)

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