terça-feira, 29 de novembro de 2016

O assassinato, conto RCF



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         Está muito claro que fui assassinado naquele verão, à beira da praia, numas férias fora de hora e, poderia dizer, fora de lugar.
         Na vendinha da cidade – caso se possa chamar o vilarejo de cidade –, vende-se tudo: botões, gás, linhas, agulhas, lanternas, botes inflamáveis, revistas, varas de pescar, sardinhas enlatadas (e bem, tudo comestível enlatado) e minha máscara mortuária.
         – O que é isto? – perguntei.
         – Uma máscara – respondeu o dono da loja.
         – Oh uma máscara!
         – Uma máscara.
         – E o que faz uma máscara aqui?
         – O mesmo que uma pilha ou um despertador.
         – Uma pilha e um despertador.
         – Isso mesmo: uma pilha e um despertador.
         – Um despertador!
         – Ou outro objeto qualquer na loja. Aqui é uma loja – disse o vendedor. – As pessoas vêm, escolhem o que querem, pagam e vão embora.
         – Um despertador, ora bolas! Um despertador!
         O homem olhou-me abismado.
         E assim me levou para conhecer o inferno que estava dentro de um caixote. O inferno era azul e tinha botões dourados.


(conto de Manual de Tortura)

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