quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Da imprevisibilidade dos pesos de papel




Gosto de pesos de papel
e da impermanência na permanência.
O maço de papel se eriça e não se move,
seus ombros suportam o peso.
Os pesos de papel, aquário imobilizado,
em vez de peixes,
traçam a permanência do mudo.
Minhas folhas escritas
caem no outono da janela aberta.
Não posso mudar a estação
do ano, do rádio, do metrô,
da minha estada na ferrovia
– por onde vou o ferro
cria uma estrada de renúncias,
paralelas onde descarrilo
o peso dos anos.
Tudo é impermanente
mesmo os cristais aprisionados
no peso do mundo.
Talvez a abóbada celeste
seja o peso dos dias
e estejamos todos nós
cristalizados e permanentes
na silhueta das coisas.
Sem perspectiva de alumbramento,
os desenhos do tédio
murcham a impermanência.
Os olhos são dois pesos
de cristalino espanto
e, contudo, fixos, têm a leveza
da anatomia do sonho.



(O difícil exercício das cinzas. 2014)

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