segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Maré dos indigentes, poema RCF






O que indefine a maresia
serão os peixes das vísceras,
a flora marinha dos vermes
ou os corais cortantes da fome?

Não se sabe se é homem de rio
ou se homem de mar aberto
se é de água doce da loucura
se é de água salgada da corrosão.
A pele não se lava
e por isso não se sabe se é de couro ou de escama.

Trazem na boca o anzol
que os suspendem à vida.
O coração finge ser molinete:
ora afrouxa, ora repuxa.
A difícil e insistente pescaria de gente
mesmo na ressaca em que vivem.

Arrulham em hordas – noturnas hordas –
nas filas das sopas universais.

As duras asas que desaprenderam
o aviário ato de sobreviver.


(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)


imagem retirada da internet: maré de mendigos

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