terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Um homem é muito pouco 37





            Vim lhe fazer uma proposta.
            Proposta? Não temos nada em comum, negócio ou amizade, por que você vem me fazer uma proposta?
            Não se altere, estou aqui em missão de paz.
            Não sabia que agora você deixou a Bolsa de Valores para ser missioneiro.
            Ele não gostou da minha ironia, mas não tinha outra arma a não ser a ironia. Ele vestia um terno bem cortado – devia ser um terno bem cortado, eh bem, nunca soube exatamente o que era um terno bem cortado, devia ser um terno que cabia perfeitamente na medida certa da pessoa, eu acreditava que havia pessoas bem cortadas e que qualquer roupa lhes caía bem, aquele terno do irmão de Alice, por exemplo, podia ser bem cortado, mas o rapaz não era bem cortado, tinha braços longos, era de altura mediana, barriga proeminente e pernas curtas, não, Marcos, o irmão de Alice definitivamente não era um homem bem cortado – mas dizia que vestia terno bem cortado, carregava pasta e lá de dentro retirou alguns papéis.
            Posso sentar?
           Não consigo ser irônico com a delicadeza. A única arma que me vence é a delicadeza. É ela que cria armistícios e alivia o desconforto de situações inertes. A proposta de Marcos não era a proposta de Marcos. Era a proposta da família. Ele apenas vinha trazer o recado. Não era original a proposta de Marcos. A família queria que eu deixasse Alice em troca de grana. Expulsei-o de casa. Ele havia declarado guerra a meus nervos. E atacava a única coisa da qual me orgulhava de ter herdado dos meus pais que nunca nasceram: a honra.
            Não sabia nada sobre eles, nem física nem mentalmente, não sabia se eram comerciantes ou funcionários públicos, se eram religiosos ou comunistas, mas de uma coisa tinha certeza: se Alice herdara bens, eu herdara apenas um bem. Meu bem era saber que tinha honra. Não honra inerte, desconfortável e bélica. Não contei nada para Alice, sabia que ela ia arrumar confusão com a família. Não tanto por mim, não tanto por amor a mim, embora tivesse certeza de que Alice me amava, mas porque eles também duvidavam da capacidade de Alice de discernir. Tratavam-na como pessoa que precisava de curatela. Uma pessoa sem paz de espírito, enquanto Alice tinha o espírito devorador e acusatório da arte e a paz dos que justamente não precisam de curador, seja da família, seja de companheiro. A única curatela que Alice desejava ter era a curatela da poesia. A qualquer momento ela poderia irromper e desnorteá-la, tornando-a uma Alice que ela mesma desconhecia.


(Um homem é muito pouco. São Paulo, Nankin: 2010)

domingo, 31 de janeiro de 2016

O cavalo, poema de Lêdo Ivo

Paolo Uccello

 

No campo matinal
um cavalo assediado
pelo zumbir das moscas
mastiga avidamente,
o capim do universo.
Os insetos volteiam
no anel azul do mundo
- esfera sem passado
nos ares momentâneos.
Não há mitologia
espalhada na relva
que é verde, sem caminhos,
longe das longes terras.
E o cavalo sobrado
da inenarrável guerra
e da paz defendida
à sombra das espadas
mata a fome no campo
onde não jazem mortos
nem retroam clarins.
Sua crina estremece.
E seus cascos escarvam
a plácida planície
coberta pelos pássaros.
Já sem fome, relincha
para os céus que não guardam
as fanfarras e flâmulas
e a fumaça da História,
e se muda em estátua.