sábado, 4 de junho de 2016

A estrada, conto RCF






Arre. Nem mesmo o posto de gasolina da Ipiranga havia encontrado. Parou o caminhão no acostamento. Desceu. Olhou em volta: a vegetação miúda e retorcida. Tirou o boné, passou o braço na testa para recolher o suor. O que havia de errado naquele caminho? O pio dos pássaros. Como podiam sobreviver ali? Comer das árvores sem fruto, beber na poeira dos riachos secos. Entrou no caminhão. Pasmo. Que ia fazer? Inútil. Não estava três horas naquela esperança de encontrar Carolina?

Avistou o caminhão que vinha na outra pista. Fez sinal. O motorista não parou. Vinte e tantos anos de estrada e nunca vira aquilo. Vira assalto – chegara a ver motorista morto dentro de caminhão –, prostituição – as menininhas da idade de sua filha se oferecendo por quase nada –, vira de tudo na estrada, só não vira aquela afronta, aquele descaso, aquilo lhe doía mais do que assalto ou prostituta sem peito.

Cosme seguiu estrada. Mas não andou muito. Merda, sem gasolina. A única coisa diferente na estrada que conhecia de cor e salteado eram uns marcos, visivelmente novos, anunciando os quilômetros. Cosme estava no quilômetro 320 – quilômetro trezentos e vinte de onde para aonde?

Já ia anoitecer.

Lembrou-se da família – o que estariam fazendo agora? Três filhos, a mulher e a avó morando numa casa de dois quartos que construíra ele mesmo, tijolo após tijolo.

Frequentava a igreja. A igreja é que salvava todo mundo na vizinhança. A igreja é que salvara o Silvino da bebida, salvara o Marcos da jogatina, salvara a própria mulher dele da tristeza. A tristeza da mulher era um vício. Se não fosse o pastor da igreja a mulher tinha se matado e ele tinha de criar três filhos e cuidar da avó – como ia cuidar da avó e criar três filhos se cada dia que passava em casa correspondia a uma semana na estrada?

Adormeceu.

Dia seguinte, acordou com o sol seco e frio batendo no rosto. Pela primeira vez na vida, pela primeira vez na estrada, Cosme entrou em pânico. Imaginou-se eternamente perdido ali, abandonado. Como um náufrago, como alguém perdido no deserto. Que diabo acontecia com aquela estrada, que diabo acontecia com ele? Teria entrado numa estrada desativada? Ou ainda estava preso ao pesadelo? Iria acordar em Carolina, na cama de um hotel vagabundo e aí então suspiraria de alívio. E riria de tudo aquilo, contaria o sonho para a mulher que se benzeria e diria, cruz credo, parece até coisa do demônio.

Nenhuma nuvem no céu. Ligou o rádio. Chiado. Mexeu na antena e nada. Isolado do mundo. Desesperado, fechou o caminhão. Caminhar ainda com o sol fraco. Meio-dia, impossível a caminhada. Carolina deveria estar atrás de alguma curva, ainda que Cosme pudesse avistar a estrada meter-se, de tão reta, na linha do horizonte.

Por certo havia acidente. A polícia rodoviária desviaria o trânsito. Seria isso? Sabia não. Ao meio-dia exato, parou. Buscou abrigo na sombra de uma árvore. Passado um tempo conferiu o relógio: meio-dia. Há quantas horas ou minutos estivera andando com o ponteiro em meio-dia? Teve medo de enlouquecer. A mulher, Valquíria, lhe disse que preferia a loucura à tristeza. Quis enlouquecer: louco, ele não estaria ali. Adormeceu. Não sabia quanto tempo dormira, mas, agora, de onde estava, podia ver a estrada movimentada: caminhões, caminhonetes, carros de passeio, a estrada voltou a ser a estrada que conhecia.

Um caminhoneiro parou a um sinal de carona de Cosme. Levou-o até o local onde estava o caminhão. Mas o caminhão não estava lá. Cosme enfureceu-se. Filhos da puta, nem podia ganhar a vida honestamente, um bando de malandros vinha e lhe roubava o instrumento de trabalho.

Meses depois de voltar para casa, Cosme foi ficando triste, triste e a mulher o levou até a igreja. O pastor não a havia livrado da tristeza, por que não podia tirar Cosme daquele abatimento? Cosme frequentou a igreja. Tomou gosto das rezas. Estava desempregado, pagava ainda as cotas do caminhão roubado. Mas era feliz. Até o dia que entrou na igreja e encontrou-a vazia. Nem mesmo o pastor estava lá. Como a igreja podia estar vazia se era domingo de Páscoa?





imagem retirda da internet:rodney smith

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Desclassificado poético, poema RCF




Vende-se, troca-se, empresta-se
alma vazia, uso desmedido,
não necessita de muita manutenção,
um pouco de poesia,
dois dedos de beleza,
um pouco de amor, pelo amor de Deus.
Capaz ainda de espasmos,
lúcida, embora dolorida,
aparência de nova,
perspicaz e dolorosa,
pode ser usada em leitura,
sentimentos nobres permitidos,
outros ignóbeis também presentes.
Quem tiver interesse,
telefonar ou procurar
na portaria do corpo
bater à porta
do corpo que a transporta.
Exige-se sigilo.
E uma profunda humanidade.


(do livro Memória dos Porcos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)


(imagem retirada da internet: alma gêmea)

terça-feira, 31 de maio de 2016

O boi, poema RCF



na colcha
                  de retalhos das plantações
o campo
                  não se mede com o metro do homem
o que vale
                 são os pastos
o livro tombo dos mourões
o tabelionato das valas
a notaria dos rios
o documento de letras dobradas
dos córregos e montanhas

o boi
              é o verdadeiro agrimensor
                                                anarquista
tabelião rebelde
              só respeita a seca
                                     forma de cerca
               hectare de um metro
que o cerca a cada passo
                            na terra devastada

o boi
           come o hectare
                                como quem pasta o limite


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

(imagem retirada da internet: pintura ignacio da nega)

domingo, 29 de maio de 2016

Um homem é muito pouco 15






Meses depois, Toninho Marcos voltou dos Estados Unidos. Conseguira a galeria e marcou a exposição. Ele ficara com todos os encargos e gastos da montagem. Mas como eram os Estados Unidos, Toninho Marcos contratou firma que transportava, montava e divulgava a exposição. Os irmãos de Toninho Marcos não gostavam da profissão de artista dele, mas compareciam às vernissages e gostavam de sair nas colunas sociais onde apareciam em foto. Toninho Marcos voltou ainda mais americanizado, tinha morado em apartamento de um só cômodo e fizera ali também seu ateliê, o único inconveniente era dormir com o cheiro de tinta, comer com o cheiro de tinta, pensar em Yolanda com o cheiro de tinta. Toninho Marcos usava muitos termos em inglês, o cabelo vinha até o meio das costas, fumava, contudo, cigarros brasileiros e bebia vodca.

Tinha o cacoete de virar-se para trás como se alguém estivesse em suas costas. Da mesma maneira que Clemente tinha medo de Bremen, Toninho Marcos tinha medo de voltar à casa da dra. Nise da Silveira. Andava pela city como estivesse numa grande galeria. Olhava as paredes laterais dos buildings e pensava numa grande tela. O cheiro de descarga dos carros e outros cheiros urbanos, ele não os sentia, carregava no nariz o cheiro das tintas. E cada olhada mais demorada sua, ele pouco via movimento e sim cores, luzes e sombras e fixava o momento como se estivesse dentro de um quadro. Às vezes Toninho Marcos pensava a cidade do Rio como a Paris de Utrillo, mas quando ia levar à tela as impressões e visões da cidade saía algo abstrato e, agora, caminhava para o geométrico.

Como voltara a estar com Liechtenstein, Toninho Marcos sentia a influência dele e caminhava também para registrar as cenas urbanas numa espécie pop das revistas em quadrinhos, como já fizera outro pintor carioca, que Toninho Marcos conhecia socialmente, mas não gostava por ser pernóstico e, assim pensava Toninho Marcos, vê-lo, a ele, Toninho Marcos, como naïf ou louco que pintava como terapia.



(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010.)